Estudo divulgado pela Science ajuda a explicar quais medidas de isolamento social mais ajudaram na contenção do coronavírus.| Foto: Bigstock
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Desde março, o mundo todo viu escolas e universidades adotando o ensino virtual; estabelecimentos comerciais trocando o atendimento presencial pelo delivery e pessoas pedindo umas as outras para ficarem em casa. O impacto de cada uma dessas medidas contra a Covid-19, no entanto, ainda não é claro, mas alguns estudos estão começando a obter essas respostas.

O mais recente, divulgado no dia 15 de dezembro pela revista Science, observou sete medidas não-farmacológicas adotadas por 41 países entre os meses de janeiro e o fim de maio, e tentou responder a uma dúvida importante: quais intervenções foram mais eficazes para conter a disseminação do novo coronavírus?

Na resposta, os pesquisadores viram que algumas medidas tiveram maior impacto, como:

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  • Fechamento de estabelecimentos não-essenciais com alto risco de infecção, como bares, restaurantes e casas noturnas;
  • Limitar reuniões a apenas 10 pessoas;
  • Fechamento de escolas e universidades.

A lista foi montada em comparação às outras quatro medidas de contenção avaliadas. Assim, limitar as reuniões de pessoas a um grupo de 10 indivíduos se mostrou melhor do que em reuniões com 100 ou mil participantes. Da mesma forma, impedir o acesso a estabelecimentos não-essenciais com maior risco de contaminação teve maior impacto do que limitar outros locais, sem o mesmo risco.

Com relação às universidades e escolas, os pesquisadores destacam que observaram um efeito positivo significativo a partir do fechamento, e essa resposta se mostrou robusta mesmo em diferentes modelos de estruturas, variações de dados e suposições epidemiológicas. Eles não conseguiram distinguir, porém, os efeitos isolados de cada instituição de ensino, visto que a maioria dos países analisados adotou a medida em períodos de tempo muito próximos.

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Ficar em casa teve algum efeito?

Diante das outras medidas adotadas, o isolamento social não teve o mesmo impacto, de acordo com os pesquisadores. Esse efeito não tão significativo, no entanto, se apresentou apenas quando as outras intervenções haviam sido instauradas pelas autoridades.

"Sempre que os países que avaliamos introduziram a política de 'ficar em casa', eles essencialmente também implementaram, ou já tinham posto em prática, todas as outras medidas não-farmacológicas descritas neste estudo. Nós consideramos essas outras medidas separadamente e isolamos o efeito do 'ficar em casa', além dos efeitos de todas as outras medidas. (...) Descobrimos que emitir uma ordem de 'ficar em casa' teve um efeito pequeno quando um país já havia fechado instituições de ensino, negócios não essenciais e banido as reuniões", destacam os autores do estudo.

O achado faz sentido, de acordo com Natália de Paula Moreira, doutoranda da USP e membro do Observatório Covid-19 BR – iniciativa independente, que reúne mais de 80 pesquisadores do Brasil para analisar dados e informações sobre a pandemia.

"Como já tinham sido fechados os principais lugares aos quais as pessoas poderiam se dirigir, como trabalho, escola e comércios não-essenciais, isso limitou a possibilidade de aglomeração, locais onde elas seriam contaminadas, principalmente na época do inverno, período que a boa parte da amostra estava durante o estudo", explica a pesquisadora. Mesmo que as pessoas pudessem sair de casa naquele momento, o risco de contaminação seria baixo, e o impacto da medida de "ficar em casa" contra a Covid-19 seria, também, reduzido.

Segundo Lorena Guadalupe Barberia, pesquisadora principal do Núcleo de Estudos Comparados e Internacionais da USP e também membro do Observatório Covid-19 BR, nenhum estudo, até o momento, aponta para uma falta de benefício das medidas de distanciamento físico. "O que os estudos discutem é identificar, pensando em pandemias futuras, quais medidas fazem mais sentido no início da pandemia, quais na fase intermediária", diz Barberia, que cita como exemplo o fechamento das fronteiras no início da disseminação da doença pelo mundo.

"Sabemos hoje que a forma como o vírus chegou a todos os países foi pelas viagens internacionais. Quando Wuhan impediu as viagens, isso ajudou a controlar a transmissão lá. Ter um trânsito internacional elevado é um alerta muito importante, e é uma área que estamos começando a olhar. Quais foram as medidas implantadas para monitorar e colocar os viajantes em quarentena? O Brasil não fechou as fronteiras no início, não fez a quarentena das pessoas e, essas, quando chegavam aqui, seguiam pelo território nacional", explica a pesquisadora.

Coesão das medidas

A pesquisa divulgada pela Science não se atém a nenhum país específico, visto que eles analisaram 41, mas as pesquisadoras do Observatório Covid-19 BR lembram que, em locais que adotaram um pacote de medidas coesas, o controle da pandemia se mostrou mais eficaz.

"O Brasil fechou escolas, comércios, decretou o auxílio emergencial, mas a população teve que sair de casa, fazer fila na frente dos bancos. Esse é um exemplo que não faz sentido, porque no início da pandemia você está pedindo para a população ficar em casa, usar máscaras, manter a distância, mas todos precisaram ir para a fila", exemplifica Barberia.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]

Festas de fim de ano

Pensando nas reuniões de fim de ano, o estudo divulgado pela Science sugere o mesmo que muitos especialistas: reúna-se apenas com poucas pessoas.

"Outros estudos também têm indicado que proibir aglomerações é importante. As políticas de distanciamento têm evidências de que reduzem, sim, o número de infecções. E pensando agora, final de ano, verão, esse é um momento importante e delicado, e o artigo chama atenção justamente para essa questão", afirma Moreira.

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