Uso de ozonioterapia não tem benefícios comprovados, inclusive contra a Covid-19. Especialistas alertam para os riscos| Foto: Bigstock
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Em uma pandemia para a qual não há, por enquanto, medicamentos ou vacinas comprovadamente eficazes, diferentes terapias tendem a ser discutidas. A mais recente é o uso medicinal do ozônio, também chamado de ozonioterapia.

A técnica consiste na aplicação, por diferentes vias (intravenosa, intramuscular ou mesmo retal) dos gases oxigênio (O2) e ozônio (O3), com um objetivo terapêutico. Apesar de tóxico (caso inalado), o ozônio tem sido estudado para ser usado de forma tópica, por meio de sondas, bolsas pressurizadas ou mesmo injeção, contra diferentes doenças.

Para nenhuma delas, no entanto, há comprovação científica de eficácia e segurança, e o próprio Conselho Federal de Medicina reforça esse alerta. De acordo com a entidade, o uso da terapia deve ser restrito a estudos científicos, em caráter experimental, e os médicos são proibidos de prescreverem o tratamento em consultórios ou hospitais.

Ainda assim, em 2017, a terapia recebeu o aval do Senado brasileiro para ser usada em tratamentos diversos, de queimaduras a doenças crônicas. A ozonioterapia também faz parte das "práticas integrativas e complementares" do Ministério de Saúde, ofertada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), desde 2018.

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Benefícios para Covid-19 em dúvida

Em relação à Covid-19, a dúvida é a mesma. Não há indicação de uso, ou benefício, da ozonioterapia contra o novo coronavírus. "Não há na literatura médica nada que tenha tratado um grupo de pacientes com ozonioterapia em comparação a um grupo que não tenha sido tratado, e avaliado se havia alguma diferença estatística entre os dois. Então fica difícil estabelecer o nexo causal contra a Covid-19. É mais uma falácia na ansiedade do fazer pelo fazer", destaca Reginaldo Oliveira Filho, médico clínico hospitalista do Hospital São Vicente, em Curitiba.

O especialista lembra ainda que nenhuma Sociedade médica recomenda esse tratamento, mas que o ozônio tem se mostrado benéfico em uma ação específica: desinfecção hospitalar. "Fiz uma pesquisa e vi que tem bastante estudo de boa qualidade mostrando o uso da ozonioterapia para esterilizar centro cirúrgico, em ambientes intra-hospitalares. Mas não consegui achar nada, nenhum estudo sério, com aplicabilidade em Covid-19", reforça.

De acordo com a plataforma ClinicalTrials.gov, que reúne todos os estudos clínicos realizados no mundo, há um total de cinco estudos avaliando o uso da ozonioterapia no contexto da Covid-19, em pacientes. Destes, apenas um foi finalizado.

Os pesquisadores da Universidade de Marmara, na Turquia, entrevistaram, por meio de uma ligação telefônica, 71 pessoas que haviam recebido a terapia antes da pandemia, durante 10 dias. O objetivo era verificar um possível efeito preventivo do tratamento. Não foi possível encontrar os resultados desse estudo.

Há, ainda, trabalhos chineses que usam o ozônio associado à técnica de auto-hemoterapia (que é proibida no Brasil), segundo explica José Rocha Faria Neto, professor da Escola de Medicina da PUCPR e pesquisador do Centro de Epidemiologia e Pesquisa Clínica da Universidade (Epicenter). "Eles retiram o sangue do paciente, tratam com ozônio e colocam novamente. Mas são estudos com dois, três pacientes, sem qualquer comprovação. É algo que não deveria nem ser cogitado, na verdade", explica.

Outra questão que deixou o pesquisador espantado foi a forma de administração divulgada nos últimos dias: via retal. "Eu não vi absolutamente nada sobre essa eventual forma de administração retal. Isso beirou o absurdo. Os gestores devem parar com essa ideia de que, a cada nova pseudoterapia que surge, colocar para o povo como algo milagroso. É perda de tempo, dinheiro e, muitas vezes, pode criar uma falsa sensação de proteção", reforça.

Riscos de lesões

Além de não haver benefícios, há riscos importantes a serem considerados. Depois da divulgação do prefeito de Itajaí sobre o uso da terapia, via retal, em pacientes confirmados para a Covid-19, a Sociedade Brasileira de Coloproctologia ressaltou, em nota, que:

"(...) a ozonioterapia é uma técnica considerada experimental pelo Conselho Federal de Medicina, ou seja, não há estudos científicos robustos e seguros que comprovem sua eficácia. Infelizmente ainda não temos a cura para a Covid-19 e qualquer tratamento que venha a ser usado experimentalmente pode ter resultados adversos ao esperado. A aplicação do ozônio por meio de sonda no intestino pode perfurar o reto e provocar danos mais graves. Além disso, a ozonioterapia, não sendo recomendada, pode retardar o tratamento e levar a complicações da Covid-19. Portanto a Sociedade Brasileira de Coloproctologia não recomenda a ozonioterapia como tratamento para a Covid-19, tendo em vista se tratar de uma técnica ainda experimental e que pode agravar a saúde do paciente."

Em fevereiro desse ano, o uso da ozonioterapia contra uma osteomielite – inflamação crônica do osso devido a uma infecção – levou à amputação de parte da perna de um homem no Distrito Federal, de acordo com informações divulgadas pelo portal G1. O paciente, que já tinha a indicação de amputar o pé por causa do problema, acabou perdendo parte da perna após passar por 30 sessões com ozônio, e gastar R$ 5 mil.

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"Exploração da pandemia"

Em abril, uma clínica nos Estados Unidos foi proibida pela justiça norte-americana de divulgar a ozonioterapia como um tratamento contra a Covid-19. A justificativa para tal banimento se baseou na falta de tratamentos efetivos, até o momento, contra a doença, e que a divulgação da prática poderia ser considerada uma "exploração da pandemia para ganho pessoal".

"O Departamento de Justiça não aceitará e não permitirá a promoção fraudulenta de supostos tratamentos contra a Covid-19 que não fazem bem e que podem ser prejudiciais. Estamos trabalhando com parceiros de aplicação da lei e agências para impedir aqueles que tentam lucrar com a venda de produtos inúteis durante esta pandemia", afirmou Jody Hunt, Procurador-Geral Adjunto do da divisão Civil do Departamento de Justiça, de acordo com publicação no site da agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos, FDA.

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Nem nos túneis de desinfecção

Mesmo quando usado nas chamadas câmaras de desinfecção, o efeito do ozônio é questionável e o risco é significativo, de acordo com as orientações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) repassadas em maio.

A Nota Técnica 51/2020 destaca que o ozônio é uma das substâncias usadas nas câmaras, cabines ou túneis voltados à desinfecção das pessoas, e que haveria, portanto, um risco à saúde. "A exposição de leve a moderada ao gás ozônio produz problemas nas vias respiratórias e irritação nos olhos. Dependendo do tipo de exposição, pode causar desconforto respiratório e outros danos, podendo levar a óbito", reforça a Anvisa em publicação no site da instituição.

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