A pandemia da Covid-19 também trouxe um impacto na saúde mental| Foto: Pexels
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Quando o novo coronavírus chegou aos Estados Unidos, a saúde mental ficou para trás da saúde física. A prioridade era fazer com que os hospitais não fossem sobrecarregados e que tantas vidas quanto o possível pudessem ser salvas.

As escolas fecharam, o trabalho de casa se tornou a regra, os restaurantes não abriram mais, e se encontrar com os amigos não era mais possível. As notícias traziam histórias atrás de histórias destacando o número cada vez maior de casos e de mortos, enquanto o desemprego subiu a níveis não vistos desde a Grande Depressão norte-americana.

Qualquer uma dessas mudanças geraria um aumento nos problemas de saúde mental. Juntas, criaram uma tempestade perfeita para uma crise. Especialistas especulavam, e as pesquisas mostraram, que muitas pessoas pareciam, intuitivamente, compreender o impacto da pandemia na saúde mental. No entanto, dados sobre isso eram escassos e nós não sabíamos a magnitude de qualquer mudança nas questões de saúde mental, e também não entendíamos quais grupos de pessoas estavam sofrendo mais que outras.

Então, decidi coletar os dados desse impacto na saúde mental durante a pandemia e comparar com aqueles coletados antes de tudo isso acontecer. As diferenças foram piores do que eu antecipei.

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Uma divisão geracional

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No dia 27 de abril, entrevistei 2.032 adultos norte-americanos usando uma medida padrão de estresse mental que questiona, por exemplo, a frequência com que o participante se sentiu triste ou nervoso no último mês. Comparei as respostas com uma amostra de 19.330 pessoas demograficamente similares que responderam a um questionário com as mesmas perguntas em 2018, em uma pesquisa financiada pelo governo norte-americano.

Os resultados foram surpreendentes: os participantes de 2020 eram oito vezes mais propensos a serem identificados como positivo para uma doença mental séria (28%). Em comparação, na pesquisa de 2018, esse grupo representava 3,4%. A grande maioria dos participantes de 2020 (70%) atendiam os critérios para doenças mentais em níveis moderado a sério, em comparação a 22% do grupo de 2018.

Claramente, a pandemia tem tido um efeito devastador na saúde mental. Ainda assim, algumas pessoas sofrem mais do que outras. Adultos jovens entre os 18 e 44 anos – maioria iGen e millennials – sofreram impactos maiores dessa situação em sua saúde mental. Eles vivenciaram um aumento 10 vezes maior no sofrimento mental grave em comparação com 2018. Enquanto isso, adultos de 60 anos ou mais tiveram o menor aumento nas questões de saúde mental.

Por que esse parece ser o caso? Afinal, o vírus tem implicações muito mais sérias para pessoas mais velhas. Pode ser porque pessoas idosas são mais protegidas das perturbações econômicas da pandemia. Adultos jovens estão em maior risco de perderem os empregos enquanto lojas e restaurantes fecham, e estão em maior risco de estarem em uma posição financeira precária.

Os adultos jovens também eram aqueles que já estavam lutando com questões da saúde mental: a depressão entre pessoas de 18 a 25 anos aumentou entre 2012 e 2017, possivelmente devido ao menor tempo que essas pessoas passam interagindo com outras pessoas – uma situação exacerbada pela pandemia.

Pais sob pressão

Outro grupo em estresse não surpreenderá os pais: são as pessoas com crianças abaixo dos 18 anos em casa. Com as escolas e creches fechadas durante a pandemia, muitos pais estão tentando algo quase impossível, que é trabalhar e supervisionar os filhos ao mesmo tempo. Esportes, escoteiro, aulas de música, acampamentos e qualquer outra atividade que os pais dependiam para manter as crianças ocupadas foram canceladas. Até mesmo parques foram fechados por semanas.

Essa tendência não ocorreu apenas porque as pessoas com filhos em casa são mais jovens. Mesmo entre aqueles de 18 a 44 anos, o grupo com crianças em casa mostrou aumentos maiores no estresse mental que em comparação ao grupo sem filhos. Em 2018, era menos provável aos pais vivenciaram estresse mental do que aqueles sem filhos. Mas, até o fim de abril de 2020, a lógica se inverteu.

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Para onde vamos daqui?

Os resultados desse estudo são preliminares. As amostras de 2020 e 2018, embora muito similares em idade, gênero, raça e região, vieram de diferentes fontes, e por isso podem se diferenciar de outras maneiras.

No entanto, há outras indicações que a saúde mental esteja sofrendo durante a pandemia. Por exemplo, ligações para centros de saúde mental parecem ter crescido. Isso não significa necessariamente que nós devemos reabrir a economia para preservar a saúde mental. O aumento resultante na doença e em número de mortos pela Covid-19 pode ser pior que pela saúde mental, e os trabalhadores que são chamados a retornar aos seus postos têm razão em se preocuparem com o vírus.

Mas significa que os políticos devem estar preparados para um número sem precedentes de pessoas que necessitam de serviços de saúde mental. Assim como os hospitais estão sob o risco de não terem respiradores suficientes durante um surto de Covid-19, o sistema de saúde mental pode rapidamente sobrecarregar.

A pesquisa também mostrou como o impacto da pandemia se alastrou, e quantas pessoas estão em sofrimento. Se você estiver se sentindo triste sobre tudo que foi perdido – e nervoso sobre a incerteza do que vem a seguir – você não está sozinho.

*Professora de Psicologia da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos.

©2019 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

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