Infecção

O novo coronavírus estava mesmo na Europa desde março de 2019?

  • PorClaire Crossan
  • The Conversation
  • 14/07/2020 09:13
Contaminação da amostra de esgoto estudada pode explicar a suposta presença do novo coronavírus desde março de 2019 na Europa
Contaminação da amostra de esgoto estudada pode explicar a suposta presença do novo coronavírus desde março de 2019 na Europa| Foto: Bigstock

O novo coronavírus – Sars-Cov-2 – pode ter chegado à Europa muito antes do que se pensava anteriormente. Estudos recentes sugerem que o vírus estava circulando na Itália desde dezembro de 2019. Ainda mais surpreendente, pesquisadores da Universidade de Barcelona, na Espanha, encontraram traços do vírus ao testarem o amostras de esgoto não tratado, datadas do dia 12 de março de 2019.

Esse estudo foi publicado recentemente em uma plataforma de pesquisas sem revisão, o medRxiv. O artigo está, no momento, sendo revisado por pesquisadores de fora e sendo preparado para publicação em um periódico científico. Até que esse processo de revisão pelos pares esteja completo, no entanto, a evidência precisa ser tratada com precaução.

O que a pesquisa encontrou?

Um dos achados iniciais sobre o Sars-Cov-2 detalhava que o vírus podia ser encontrado nas fezes das pessoas infectadas. Conforme o vírus segue pelo corpo até o estômago – onde pode causar sintomas gastrointestinais –, ele perde a camada externa de proteína, mas pequenas partes do material genético, chamado de RNA, sobrevive à jornada intacto e pode ser identificado nas fezes. Nesse ponto, o vírus não é mais infeccioso – conforme as evidências atuais indicam.

Mas o fato de que partes pequenas do RNA do coronavírus podem ser encontradas em esgoto não tratado é útil para o rastreamento de surtos. Elas podem prever onde um surto possivelmente vai acontecer entre uma semana a 10 dias antes de aparecer nos dados oficiais – a razão para isso é que as pessoas começam a eliminar o coronavírus antes dos sintomas se tornarem evidentes. E leva-se um tempo até essas pessoas "pré-sintomáticas" adoecerem o suficiente para serem testadas, obterem os resultados e serem admitidas nos hospitais como um caso "oficial". Por isso há o atraso de uma semana ou mais.

Como resultado, muitos países, inclusive a Espanha, estão agora monitorando o esgoto por traços do novo coronavírus. Nesse estudo em particular, os epidemiologistas examinaram amostras congeladas de esgoto não tratado entre janeiro de 2018 e dezembro de 2019, para verificar quando o vírus chegou na cidade.

Eles encontraram evidências do vírus no dia 15 de janeiro de 2020, 41 dias antes do primeiro registro oficial ser declarado, em 25 de fevereiro de 2020. Todas as amostras antes dessa data apresentaram resultado negativo para o vírus, exceto por uma datada de 12 de março de 2019. O teste utilizado foi o PCR, que é o teste padrão para verificar a presença do material genético do vírus.

O teste PCR avalia amostras da saliva, fleuma (muco espesso do trato respiratório), esgoto congelado ou qualquer local que o vírus possa estar presente. Na sequência, ao retirar substâncias desnecessárias da amostra, o teste converte o RNA (que é um único filamento do material genético) em DNA -– a famosa dupla hélice.

O DNA é, então, "amplificado" em sucessivos ciclos até que peças-chave do material genético – conhecidos por existirem em um vírus em particular – sejam abundantes o suficiente para serem detectados em uma sonda fluorescente.

Nada muito específico

Em um teste para o coronavírus, os cientistas em geral rastreiam por mais de um gene. Nesse caso, os pesquisadores testaram para três. Eles obtiveram um resultado positivo para a amostra de março de 2019 para um dos três genes testados – o gene RdRp. Eles examinaram duas regiões desse gene e ambas foram detectadas apenas em torno do 39º ciclo de amplificação. (Os testes PCR se tornam menos "específicos" com rondas crescentes de amplificação. Pesquisadores usam, em geral, 40 a 45 rondas de amplificação.)

Há várias explicações para esses resultados positivos. Um deles é que o Sars-Cov-2 está presente no esgoto em um nível baixo. Outro é que o teste foi acidentalmente contaminado com Sars-Cov-2 no laboratório. Isso acontece de vez em quando visto que as amostras positivas para os vírus são manuseadas constantemente, e pode ser muito difícil prevenir que pequenos traços das amostras positivas contaminem as demais amostras.

Outra explicação é que há outro RNA ou DNA na amostra que se assemelha ao local-alvo do teste em quantidade suficiente para dar um resultado positivo no 39º ciclo de amplificação. Mais testes devem ser feitos para concluir que a amostra contém o Sars-Cov-2, e um achado dessa magnitude requer que o estudo seja replicado separadamente em laboratórios independentes.

Razões para cautela

Uma questão curiosa sobre esse achado é que vai na contramão dos dados epidemiológicos sobre o vírus. Os autores não citam um aumento no número de doenças respiratórios na população local na sequência dos dados da amostragem.

Da mesma forma, sabemos que o Sars-Cov-2 é altamente transmissível, pelo menos na forma atual. Se esse resultado for um positivo real, sugere que o vírus estava presente na população em uma incidência suficiente para ser detectado em uma amostra de 800 ml de esgoto, mas não em uma incidência suficiente para ser detectado durante nove meses, período em que não houve a adoção de medidas de controle. Desta forma, até que mais estudos sejam conduzidos, é melhor que conclusões definitivas não sejam tiradas.

*Pesquisadora Fellow de virologia da Universidade Caledônia de Glasgow, no Reino Unido.

©2020 The Conversation. Publicado com permissão. Original em inglês.

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