A resposta imunológica contra o novo coronavírus pode ser de longa duração, indicam estudos recentes| Foto: Pixabay
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Por quanto tempo uma pessoa que se recuperou de Covid-19 está protegida de uma nova infecção pelo novo coronavírus? Especialistas e a população em geral temem que uma resposta imune que dure pouco tempo dificulte o controle da pandemia, mesmo com vacinas.

Mas estudos recentes têm trazido respostas animadoras a essa questão: embora ainda seja cedo para afirmar com certeza, os dados apontam que a imunidade contra o novo coronavírus tem uma duração maior do que se esperava e pode proteger as pessoas de uma nova infecção por um tempo prolongado.

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Estudos anteriores, feitos no começo do ano, mostraram que os anticorpos contra o coronavírus produzidos após uma infecção podem decair ou mesmo desaparecer em poucos meses. Mas os anticorpos não são a única arma usada pelo sistema imune para se defender – as células de memória imune também ajudam a evitar uma reinfecção.

Agora uma pesquisa publicada online nesta semana, ainda sem revisão de cientistas independentes, viu que pacientes recuperados de Covid-19 ainda tinham quantidade suficiente de células do sistema imune para combater a doença até oito meses após terem sido infectados.

A equipe, de pesquisadores do Instituto para Imunologia La Jolla e outras instituições americanas, analisou amostras do sangue de 185 pacientes recuperados da doença. Eles identificaram que alguns tipos de células de memória B e T ainda estão presentes em quantidades razoáveis entre seis a oito meses após a infecção.

Os níveis de células B, que produzem anticorpos, continuaram aumentando no período de seis meses após o aparecimento dos sintomas, mostram os dados. Isso indica que, mesmo se os anticorpos decaírem, outras células estão prontas para produzir essas proteínas caso a pessoa entre em contato novamente com o vírus.

Um outro estudo divulgado no início de novembro, de um grupo americano com cientistas brasileiros na equipe, já tinha chegado a conclusões semelhantes. Julio Cesar Lorenzi, pesquisador associado da Universidade Rockfeller (EUA), que participou desse outro estudo, considera os resultados recentes animadores. Ele diz que as descobertas foram na linha do que os pesquisadores da área já esperavam, e ressalta que é preciso mais tempo para sabermos com certeza qual é a duração da imunidade contra o coronavírus.

"O tempo vai confirmar essas perspectivas baseadas nos dados que temos agora e no conhecimento prévio de outras doenças", ponderou Lorenzi. "Nós encontramos essas células, ativas e produzindo ótimos anticorpos em todos os pacientes".

Os pesquisadores fizeram um paralelo com o que já se conhece sobre o comportamento do sistema imunológico em relação a outras doenças para chegar à conclusão de que a imunidade contra o Sars-CoV-2 pode ser duradoura. As células B normalmente resistem muito tempo no corpo humano, e os pesquisadores viram que não houve decaimento dessas células em seis meses entre os pacientes de Covid-19 analisados, indicando que a perda desse tipo de célula de defesa deve ser lenta no caso dessa infecção.

Mas ainda não existem no mundo pessoas que se recuperaram de Covid-19 há muito mais de um ano - o primeiro caso conhecido da doença no mundo completou um ano na terça-feira, 17 de novembro. Por isso, testes que confirmarão a durabilidade da resposta imune a esse vírus ainda estão por serem feitos.

Alessandro Farias, coordenador da Frente de Diagnósticos da Força-Tarefa da Unicamp contra a Covid-19, compartilha do otimismo com cautela em relação a essas descobertas. "Qualquer certeza que temos agora nunca é certeza, porque temos pouco tempo de entendimento desse vírus", afirmou, lembrando que a duração da imunidade depende também de outros fatores, como mutações sofridas pelo vírus.

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"O que parece é que a imunidade, pelo menos nesse tempo que estamos vendo, é razoavelmente boa para a grande maioria das pessoas. Temos suspeitas de reinfecção, mas temos pouquíssimos casos confirmados de reinfecção em relação ao número de pessoas infectadas no mundo", disse Farias.

Os resultados corroboram as descobertas de um outro estudo publicado nesta sexta-feira (20) pela Universidade de Oxford, que concluiu que os infectados pelo Sars-CoV-2 têm poucas chances de contrair a doença em um período de pelo menos seis meses. A pesquisa em grande escala, que ainda não passou por revisão independente e não foi publicada em periódico científico, observou mais de 12 mil profissionais de saúde que foram testados regularmente em um período de 30 semanas.

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