Medicação não tem efeito benéfico comprovado contra a Covid-19, e grupos como gestantes e crianças não são de risco para a doença.| Foto: Bigstock
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Gestantes, assim como crianças, não são considerados grupos de alto risco para complicações da Covid-19. Usar medicações com potencial de causar prejuízos e sem eficácia comprovada para o novo coronavírus, como é o caso da hidroxicloroquina e da cloroquina, parece ser um contrassenso, na opinião de especialistas.

Porém, na última segunda-feira (15), o Ministério da Saúde ampliou a permissão de uso dessas medicações tanto para grávidas quanto para crianças, inclusive entre pacientes com sintomas iniciais. A decisão vem na contramão das orientações de outros países.

No mesmo dia, a agência de controle de alimentos e medicações dos Estados Unidos, a FDA, revogou a autorização de uso emergencial dessas medicações entre pacientes com a Covid-19. O motivo? A falta de evidências claras de que o remédio possa beneficiar esse público, além do risco cardíaco associado.

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Hidroxicloroquina na gestação

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De acordo com Daniel Mandarino, médico obstetra do hospital Nossa Senhora das Graças, em Curitiba, o uso de medicamentos, seja em qual situação for, sempre exige uma avaliação dos riscos e benefícios. Durante um momento gestacional, esse cuidado é ainda mais importante, pois envolve a vida de duas pessoas.

No caso de mulheres que já faziam uso da hidroxicloroquina antes da gestação, como no caso de pacientes com doenças reumáticas, o medicamento pode até ser mantido, conforme a avaliação médica, a fim de estabilizar a doença. Para o tratamento da Covid-19, porém, não há motivos.

"Para situações específicas, em que tenha um benefício claro, você pesa o risco e mantém uma medicação que era usada mesmo antes da gravidez, como para estabilizar uma doença. Tudo que vimos até agora com a cloroquina são evidências muito fracas, e sem um benefício muito real. É uma questão, inclusive, eticamente preocupante", explica o especialista.

Riscos diferentes

O médico obstetra lembra que, ao contrário da epidemia de H1N1, em 2009, em que as gestantes tinham um risco de desenvolver quadros mais graves da doença, o mesmo não é visto no contexto da Covid-19.

"Há chances de complicação entre elas tanto como na população em geral. Claro, gestantes de alto risco, como aquelas com diabete, hipertensão, podem ter o risco aumentado de complicação para a Covid-19, mas em geral têm o mesmo risco de uma população adulta saudável", explica.

A falta de destaque a esse público não justificaria, segundo Daniel, um tratamento diferente. "Apenas por questão de bom senso várias entidades têm considerado manter a gestante como alto risco, mas mais por uma questão protetiva", reforça.

A mesma opinião é compartilhada pelo médico cardiologista José Rocha Faria. "O risco de complicação grave em criança e em mulheres em idade fértil é muito pequeno. Só para ter um exemplo: no estado do Paraná temos, até segunda-feira (15), 2410 casos de pessoas com a Covid-19 abaixo dos 30 anos. E o número de óbitos nesse grupo: dois. Não se justifica o uso dessa medicação entre esse público", cita o médico, que também é professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Para o obstetra, o melhor cuidado a esse grupo é manter a prevenção reforçada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), como distanciamento social, evitar exposições desnecessárias, higienização adequada das mãos e uso da máscara. "O mais importante é prevenir", completa.

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Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]
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