Coronavírus

Falhas genéticas podem explicar porque jovens, sem doenças, morrem de Covid-19

No Brasil, um em cada 4 mortos pela Covid-19 é jovem e sem comorbidades. Estudo global tenta achar as respostas para isso

  • Por Amanda Milléo
  • 23/04/2020 10:07
Danos na produção ou na função das células de defesa prejudicam combate ao novo coronavírus de jovens sem comorbidades
| Foto: Bigstock

Um em cada quatro mortos pelo novo coronavírus no Brasil não se encaixa nos perfis de risco da doença, que são a idade avançada ou as doenças crônicas, como diabetes e problemas cardíacos. Os motivos que levam uma pessoa jovem, aparentemente saudável, a desenvolver um quadro mais grave da Covid-19 ainda não estão claros, mas essas dúvidas devem ser respondidas em breve.

Isso porque, pesquisadores de 24 países deram início a um esforço global, chamado de COVID Human Genetic Effort, para descobrir se (e quais) são as falhas genéticas do sistema imunológico de algumas pessoas que acabam predispondo à infecção pelo novo coronavírus. No Brasil, duas equipes fazem parte desse estudo recém-lançado.

Pesquisadores coordenados pelo imunologista Antonio Condino Neto, da Universidade de São Paulo, vão se concentrar na maior parte dos estados brasileiros, enquanto a médica imunologista Carolina Prando estará responsável pela região Sul. "Não sabemos exatamente como o vírus vai se comportar, mas se for igual aos outros, é esperada uma maior circulação nos meses de inverno. Como aqui temos um clima mais frio durante esse período, prevemos que o trabalho por aqui seja maior também", explica a pesquisadora, que atua como imunologista e pediatra no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba.

Erros na defesa do corpo

Estima-se que existam 160 mil pessoas no Brasil com problemas na produção ou na função das células de defesa do corpo. Esses erros inatos da imunidade são conhecidos como imunodeficiência primária. "A pessoa tem uma alteração em genes que controlam o sistema imunológico, seja na produção de células de defesa ou na função delas. Essa pessoa, entre outros sintomas, terá infecções de repetição, que podem ser muito graves ou não", explica a médica imunologista.

Um exemplo de uma imunodeficiência primária é a doença do "menino da bolha". Por ter uma falha genética que impede a produção adequada das células de defesa, vírus e bactérias são combatidos com muito mais dificuldade.

Mas nem todo mundo, porém, sabe que tem esse prejuízo no sistema imunológico, visto que ele pode se manifestar mais tarde na vida. Dos 160 mil casos estimados no Brasil, apenas 2 mil são diagnosticados. "Temos cerca de 400 tipos diferentes de imunodeficiência primária e, em algumas delas, as pessoas têm infecções a vários tipos de micro-organismos, mas em outros casos podem ter infecções específicas a um deles", afirma Carolina.

A especialista traz o exemplo de pacientes que, ao serem expostos a uma bactéria, conseguem combater a infecção como qualquer outra pessoa. Mas, se for um vírus da gripe, os erros genéticos das células de defesa impedem que elas atuem da mesma forma, e a pessoa terá quadros mais graves da doença.

Falhas contra a Covid-19

É essa situação que pode estar acontecendo com as pessoas mais jovens, sem doenças prévias, que acabam morrendo da Covid-19. "Uma pessoa com 30 anos, que faz um quadro grave, sem nenhuma outra doença, ou mesmo sem ter tido nenhuma infecção de repetição, pode ter uma falha do sistema imunológico específico para a Covid-19", reforça a médica.

Para confirmar essa hipótese, os pesquisadores do estudo, da qual Carolina faz parte, vão sequenciar e analisar os genes de todos os pacientes internados em UTIs que aceitarem participar do esforço global. No momento, a coordenadora está buscando parceiros de outros hospitais do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que queiram se juntar à coleta desses dados.

Fatores de proteção contra o coronavírus

Embora o primeiro objetivo do esforço global seja identificar os fatores que fazem com que uma pessoa evolua para quadros mais graves da Covid-19, o estudo também será capaz de pontuar o que torna alguém mais resistente à infecção.

Carolina explica que, no caso de uma família com um integrante que evoluiu para uma forma grave da doença e outro, que teve contato próximo mas não testou positivo ou não desenvolveu sintomas graves, este também poderá ser analisado. "Nós queremos avaliar os fatores genéticos que fazem essa pessoa ser resistente, ter sintomas leves e aquelas que têm sintomas graves", reforça.

Resultados nos próximos meses

Se os pesquisadores perceberem que as causas que levam ao agravamento do quadro da Covid-19 são de imunodeficiências primárias já conhecidas, a expectativa é de que essa resposta chegue nos próximos dois a três meses. Porém, caso sejam novas imunodeficiências, torna-se mais difícil prever quando os resultados virão. "Por isso a importância desse esforço de colaboração de tantos centros de pesquisa reunidos. Quanto mais participantes tivermos, mais rápidos conseguimos consolidar e interpretar esses dados", finaliza Carolina Prando, coordenadora do estudo na Região Sul.

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