Pesquisadores avaliaram a transmissão da Covid-19 de crianças para adultos em uma cidade pequena da França| Foto: Bigstock
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Um estudo conduzido em uma cidade no interior da França sugere que crianças transmitem menos o novo coronavírus para adultos e para outras crianças. A pesquisa conduzida pelo Instituto Pasteur, porém, não é completa e a dúvida ainda persiste, segundo especialista e os próprios pesquisadores.

No início de fevereiro, uma escola de ensino médio na cidade de Crépy-en-Valois, próxima a Paris, identificou uma epidemia de uma doença com sintomas semelhantes à Covid-19. Como não havia o registro de casos na época na região, nenhuma medida foi tomada pelas autoridades. No mês seguinte, testes RT-PCR (que identificam a presença do vírus) foram feitos em adultos e alunos com sintomas. Entre 16,7% dos primeiros e 8,3% dos estudantes tiveram o resultado positivo para o novo coronavírus.

Os pesquisadores, então, deram seguimento ao estudo, avaliando por meio de teste sorológico (que identifica a presença dos anticorpos) cerca de 1.340 pessoas – entre professores, alunos, pais de alunos e familiares, além de funcionários de seis escolas infantis da cidade. A pesquisa identificou que 10,4% dos participantes haviam tido contato com o vírus. Entre os professores, apenas 7,1% foram infectados. Para os funcionários das escolas, a proporção foi ainda menor, de 3,6%.

A taxa de infecção se mostrou alta entre os pais de crianças infectadas, atingindo mais da metade (61%). Já entre os pais com filhos não infectados, apenas 6,9% tiveram contato com o novo coronavírus em algum momento. De acordo com os pesquisadores, os resultados indicariam que os pais tendem a ser a fonte de infecção para as famílias, e não o contrário.

"De forma geral, os resultados desse estudo se comparam aos de outros países, que sugerem que as crianças entre os 6 e os 11 anos de idade são, geralmente, infectadas em um ambiente familiar, ao invés de nas escolas. O principal achado é que as crianças infectadas não transmitem o vírus a outras crianças, ou aos professores e funcionários da escola. Esses resultados precisam ser confirmados por outros estudos, devido ao baixo número de casos do vírus na escola estudada", reforça, no site da instituição, Arnaud Fontanet, autor principal da pesquisa, e chefe da unidade de Epidemiologia de Doenças Emergentes, no Instituto Pasteur, e professor na Conservatoire National des Arts et Métiers (CNAM).

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Cidade pequena x cidade grande

Embora seja um trabalho importante, a análise dos resultados precisa levar em consideração o contexto da localidade onde foi estudada, de acordo com Carolina Prando, médica imunologista e pediatra do Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba.

"É preciso considerar que o estudo foi feito em uma cidade pequena [Crépy-en-Valois tem 15 mil habitantes, conforme destacam os próprios pesquisadores], com uma dinâmica totalmente diferente. Será que isso se daria da mesma forma que em uma cidade maior, em que tanto o grupo de funcionários quanto de professores enfrentam o transporte público para ir e voltar das escolas?", questiona.

Mesmo que as crianças não se mostrem potenciais transmissores, a médica considera importante levar em consideração os adultos que precisam se deslocar a fim de que as escolas se mantenham funcionando – esses, sim, em maior risco para as complicações da Covid-19. "Temos que pensar por esse lado, da criança como foco de transmissão, mas também não podemos deixar de pensar na exposição das outras pessoas que vão retornar ao trabalho", reforça.

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Idade como fator de transmissão

O estudo francês não está sozinho nessa constatação. Outra pesquisa, conduzida pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, desenvolveu um modelo de transmissão baseado na idade, com dados demográficos de 32 países: China, Itália, Japão, Cingapura, Canadá e Coreia do Sul.

Nos resultados, viram que, entre aqueles entre 10 e 19 anos, 21% haviam desenvolvido sintomas. Já os participantes acima de 70 anos de idade, 69% haviam tido sinais da infecção. Pessoas que desenvolvem os sintomas da Covid-19 têm um risco maior de transmissão.

Uma das explicações para essa diferença estaria em uma imaturidade do sistema imunológico das crianças. De acordo com Carolina Prando, médica imunologista e pediatra, sabe-se hoje que uma das complicações geradas pela Covid-19 é a resposta exacerbada do sistema de defesa do organismo que, mesmo depois que a carga viral é reduzida, mantém o corpo em uma inflamação sistêmica. As crianças, porém, ainda estão em um processo natural de amadurecimento do sistema imunológico – e isso pode ser um efeito protetor contra o novo coronavírus.

"Se naquele momento a criança entra em contato com o vírus e consegue controlar aquela infecção sem produzir uma resposta imunológica muito forte, a ponto de danificar outras células do organismo, isso poderia justificar por que as crianças não têm um quadro clínico tão grave", exemplifica a médica imunologista.

Outra hipótese se deve ao fato de as crianças não terem a mesma quantidade, ou configuração, do que os adultos, da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2). Esta é usada pelo novo coronavírus para entrar nas células humanas e se replicar.

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