A ideia de ampliar a rede de contatos durante a pandemia foi adotada em alguns países, mas pode não ser uma medida acertada para o Brasil nesse momento.| Foto: Bigstock
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Depois de quatro meses de isolamento social, muitos brasileiros sentem o peso da solidão e se perguntam quando poderão voltar a se encontrar com amigos, familiares e colegas.

Na falta de uma vacina contra o novo coronavírus, que poderia trazer um pouco da normalidade de antes da pandemia, uma estratégia adotada em países que conseguiram controlar os casos de Covid-19 pode ser uma alternativa para quando o Brasil estabilizar a curva de casos da doença. A “bolha de quarentena” permite que as pessoas tenham alguma interação social com amigos e familiares com menos riscos de contágios pelo vírus.

A ideia de uma “bolha” de socialização entre pessoas que moram em duas casas diferentes surgiu na Nova Zelândia e foi incorporada às medidas de combate à pandemia por países como Reino Unido, Canadá e Bélgica. As regras variam, mas os pontos centrais para montar uma bolha relativamente segura são: cada domicílio deve se unir a apenas uma única outra casa e os dois lados devem concordar com uma relação exclusiva e comunicação aberta.

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Todos os lados devem seguir as regras e ser honestos em relação às suas ações, já que o comportamento individual pode colocar em risco todos os membros da bolha. As pessoas devem também concordar sobre o grau de risco que o grupo está disposto a assumir, por exemplo: todos usarão máscaras em locais públicos? Os participantes receberão outras visitas, dentro ou fora de sua casa?

Por fim, é importante que qualquer pessoa da bolha que apresente sintomas, seja exposta a alguém infectado ou contraia o coronavírus avise imediatamente os outros. Nesse caso, todos devem se isolar.

Na Inglaterra, desde 13 de junho, adultos que vivem sozinhos e pais solteiros que moram com filhos menores de 18 anos podem se unir às pessoas de outra residência para formar uma bolha de apoio. Na prática, é como se essas duas casas se tornassem uma só - os seus moradores não precisam manter o distanciamento entre si.

Desde 4 de julho, os ingleses também podem passar um tempo dentro da casa de outras pessoas. Isso é diferente das bolhas de segurança porque as pessoas precisam manter o distanciamento social e não devem ficar juntas em locais onde isso não é possível, como carros.

Sem baixar a guarda

No Brasil, especialistas enfatizam que ainda não é o momento de adotar as bolhas de quarentena, pois o número de casos não estabilizou, especialmente na região Sul, que tem visto aumento dos contágios.

“A cultura do Brasil é diferente da britânica, tanto que a taxa de adesão deles de isolamento social sempre foi melhor do que a nossa”, ressalta Mariur Gomes Beghetto, epidemiologista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Essa pode ser uma alternativa no momento em que começarmos a ter declínio da curva”, aponta.

Para a pesquisadora, começar a flexibilizar a socialização em pequenos grupos é uma alternativa melhor do que fazer essa abertura de modo indiscriminado. “Mas isso exigiria uma disciplina que, nesse momento, não temos no Brasil”, diz.

“É muito compreensível que algumas pessoas já estejam no seu limite e queiram romper o isolamento. E aí tem o risco. Mas esse risco é menor do que simplesmente sair para a rua, sentar numa praça e conversar com um estranho”, explica Beghetto, comparando os riscos das interações dentro ou fora da bolha.

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Saúde mental no confinamento

A ideia das bolhas de quarentena é conveniente porque visa amenizar os efeitos do confinamento na saúde das pessoas. Ficar dentro de casa, reduzir o contato com outras pessoas e fazer menos atividades físicas causam impactos na nossa saúde mental que já são evidentes.

“As pessoas estão com todas as incertezas relacionadas a essa pandemia que gera uma crise mundial sem precedentes; isso associado à situação de distanciamento social está levando a um surto de casos de ansiedade”, explica Rogério Arena Panizzutti, diretor do Laboratório de Neurociência e Aprimoramento Cerebral (LabNACE) da UFRJ.

Os especialistas têm observado o aumento de casos de ansiedade em quem não sofria com esse problema e uma piora dos quadros de depressão, ansiedade e transtorno obsessivo compulsivo em quem já tinha essas condições.

Panizutti explica os fatores que causam prejuízo à saúde mental: a situação de perda de controle e de mudança de paradigma, “que faz as pessoas se sentirem ameaçadas e com incertezas sobre o futuro”, e lidar com essa situação enquanto se está distante das redes de apoio de família e amigos.

Os idosos sofrem ainda mais esses impactos, já que sentem ainda mais medo de sair de casa por serem do grupo de risco, além de muitas vezes não terem facilidade de usar as ferramentas da internet que têm ajudado a manter o bem-estar das pessoas.

O neurocientista reforça que a decisão de flexibilizar o isolamento e ter mais interações sociais precisa ser pessoal. A pessoa deve se sentir segura e os outros precisam respeitar as decisões e não pressionar quem decidir não visitar familiares, por exemplo, já que essa pressão causa ainda mais ansiedade.

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