Além dos sinais vitais, especialistas sugerem que seja feita sempre uma análise psicossocial.| Foto: Unsplash/Ben Hershey
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Peso, estatura, pressão arterial, temperatura, pulso, frequência cardíaca e respiratória. Embora esses sejam os sinais vitais mais comuns de serem aferidos em consultas pediátricas, somente eles não são capazes de refletir o real estado de saúde de uma criança.

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Os dados que se referem à saúde mental são também importantes e conhecê-los pode representar um grande ganho para aqueles futuros adultos. Isso quem afirma são os autores de um estudo feito no Massachusetts General Hospital da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, com resultado publicado no Jama Pediatrics.

Segundo um dos autores do estudo, Michael Jellinek, se gasta muito tempo em consultas com aqueles sinais, que pouco variam ao longo da infância, enquanto o desenvolvimento emocional e psicossocial seriam áreas que realmente podem sofrer grande variação no período.

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Uma das formas de averiguar esses sintomas seria aplicar um pequeno questionário, de 17 questões, feito por ele e pelo seu colega, da mesma faculdade e co-autor do estudo, J. Michael Murphy, na década de 1990, e que é recomendado pela American Academy of Pediatrics (veja abaixo). Entre possíveis pré-diagnósticos que podem escapar caso não sejam aferidas variáveis psicossociais estão o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), estresse e depressão.

Mistificação da infância

Avaliar a condição integral dos pacientes e se atentar a outros sofrimentos, como o emocional, é fundamental segundo o psiquiatra Marco Antonio Bessa, chefe do departamento de Psiquiatria na Universidade Federal do Paraná. “Nessa faixa etária isso é pouco aferido porque há certa mistificação da infância, como se sempre fosse um momento feliz, mas isso não é real, muitas crianças passam por sofrimento intenso, e principalmente na adolescência”, diz ele.

Pediatras deveriam se atentar a rastrear questões relacionadas à saúde mental em consultas de rotina, segundo a médica psiquiatra Mônia Bresolin, do Hospital Nossa Senhora das Graças, porque o desenvolvimento estrutural do cérebro humano acontece por interações complexas de influência genética e ambiental e influenciam no desenvolvimento de habilidades e comportamentos típicos (“normais” àquela fase de desenvolvimento) ou atípicos (não-normais, ou não esperado para a fase ou idade).

“O pediatra que detecta precocemente algum sinal de comprometimento mental, abre para melhores condições de tratamento”, diz ela. Para Bessa, transtornos de detectados e tratados precocemente permitem que a criança possa mitigar dificuldades ou atingir máximo potencial na vida adulta.

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Visão deturpada

Segundo o psiquiatra Marco Bessa, muitas vezes os sinais expressos pelas crianças e adolescentes são interpretados pelos outros, família e sociedade, como falhas de comportamento, o que pode agravar problemas ou gerar novos. “Transtornos emocionais como depressão e ansiedade criam dificuldades na escola e punições, quando vistos como falta de vontade, desinteresse e preguiça”, diz ele, apontando que flutuações de humor e fobias muitas vezes são entendidas como uma característica dessa criança, como parte de sua personalidade.

Sono em excesso ou em falta, muita ou pouca apetite e dores persistentes também podem ser sinais de ansiedade e depressão ou mesmo reflexos de condições de vida que a criança passa, como de negligência parental, falta de atenção ou de que ela está exposta a ambiente estressante, violência, brigas, ameaças e bullying. "Comportamentos auto-agressivos, como em adolescentes que se mutilam, podem indicar abuso físico, sexual ou psicológico”, diz Bessa.

As consequências de se atrasar o diagnóstico de um transtorno ou condição relacionada à saúde mental podem ser vistas na vida familiar, na escola e nas relações sociais. Segundo Mônia Bresolin, por este motivo tanto pediatras quanto a própria família devem ter um olhar atento para alterações de estado mental (questões emocionais, comportamentais, cognitivas e psicomotoras, como atenção, concentração, memória, agitação, inquietude, isolamento e lentidão).

Atenção redobrada

Distinguir uma angústia normal de algo que pode ser mais problemático passa, principalmente, por observar se aquilo  causa sofrimento constante na criança e interfere no seu cotidiano.

Como todos passamos por episódios de tristeza, raiva, angústia e frustração, para compreender que algo pode estar errado no seu filho é importante observar se esses sentimentos não se relacionam a um estímulo determinado e pontual, como não passar de ano, ter de se mudar de casa, perder o avô ou algo semelhante.

Depois de avaliar se há uma causa, observar a intensidade e a duração dos sintomas é fundamental para despertar o sinal de alerta. “Medir o impacto disso na vida da criança e adolescente, o quanto afeta o rendimento escolar, a relação com amigos e família e seu desenvolvimento de forma geral dá uma boa noção de que algo mais sério pode esta acontecendo”, diz o psiquiatra Marco Bessa

Fique de olho

Essas perguntas fazem parte de um questionário norte-americano, o PSC17, que objetiva aferir questões de saúde mental na infância:

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  1. Sente-se triste?
  2. Sente-se sem esperança?
  3. Sente-se para baixo em relação a si próprio?
  4. Preocupa-se muito?
  5. Pareça estar se divertindo menos?
  6. Não consegue ficar parado?
  7. Devaneia demais?
  8. Distrai-se facilmente?
  9. Tem dificuldade de concentração?
  10. Age como se fosse acionado por um motor?
  11. Briga com outras crianças?
  12. Não dá ouvidos às regras?
  13. Não entende os sentimentos de outras pessoas?
  14. Provoca os outros?
  15. Culpa os outros por seus problemas?
  16. Recusa-se a compartilhar?
  17. Leva coisas que não lhe pertencem?