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Ainda que Donald Trump esteja longe de ser um católico, uma estranha reviravolta do destino nessa última quarta-feira o deixou encurralado tanto por grupos que se classificam como “esquerda católica” quanto pelos que se veem como “direita católica”. A análise foi feita pelo vaticanista John Allen Jr., do site Crux, ligado ao Boston Globe.

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Não importa qual seja a afiliação religiosa de um candidato nos Estados Unidos, todos têm que lidar com o fato de que os católicos constituem cerca de 20% da população votante do país e, na maior parte das eleições presidenciais, eles estiveram com o lado que venceu.

Quando um desses candidatos consegue perder terreno com ambas as principais alas ideológicas do eleitorado católico americano, isso definitivamente deve prejudica-lo.

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Com a direita, Trump se viu enfrentando perguntas sobre as suas credenciais antiaborto, depois que o seu rival Ted Cruz praticamente o desafiou a processá-lo, ao veicular uma propaganda mostrando um vídeo de 1999 em que Trump se declara “muito pró-choice”, ou seja, favorável à legalidade do aborto.

A opinião de Trump evoluiu desde então e hoje ele diz que é contra o aborto. Seus advogados enviaram à campanha de Cruz uma solicitação para que pare de veicular o vídeo, mas o candidato respondeu que nenhuma corte no país poderia acusá-lo de difamação por não fazer nada mais do que citar as próprias palavras de Trump.

Trump devolveu dizendo que ele pode não apenas processar a propaganda, mas também o fato de que Cruz nasceu no Canadá e por isso seria inelegível para a presidência.

De qualquer forma, a campanha de Cruz é claramente direcionada a persuadir os eleitores que se opõem ao aborto de que Trump não é um deles.

Segundo Allen Jr., o movimento pró-vida nos Estados Unidos não está restrito a católicos conservadores, mas por outro lado, a oposição ao aborto legal é um elemento decisivo para que qualquer um se identifique como um deles e provavelmente nenhuma outra denominação religiosa é mais intransigente na luta contra o aborto do que o catolicismo.

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Isso pode não significar muito no estado onde a propaganda foi ao ar, a Carolina do Sul, onde os católicos são apenas 7% da população, mas tem uma grande importância nacional, incluindo nos estados em que os republicanos ainda não fizeram as primárias.

O embate de Cruz e Trump sobre quem é mais pró-vida é também uma lembrança aos eleitores preocupados com fé e valores de que as amplas credenciais de Trump, que se apresenta como um “conservador cultural” estão abertas a dúvidas, incluindo pelo fato de que ele se casou três vezes.

Trump x Papa Francisco

Ao mesmo tempo, Trump, um presbiteriano, entrou recentemente numa desnecessária troca de declarações com o papa Francisco, que estava no México esta semana. O pontífice, desde o território mexicano, abençoou um grupo de centenas de pessoas, incluindo imigrantes sem documentação, que estava a poucos metros de distância, em território norte-americano.

Antes do evento, Trump sugeriu que o papa não estaria muito bem informado a respeito do problema que a imigração ilegal representa para os EUA e que ele estaria sendo explorado pelo México para servir a agenda do país.

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Na noite de terça-feira, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, classificou os comentários de Trump como “muito estranhos”, apontando que o pontífice fala sobre a dignidade humana dos migrantes e refugiados em toda parte, e que ele constantemente aponta esses problemas aos líderes europeus – uma questão que, disse Lombardi, Trump poderia considerar melhor “se viesse à Europa”.

Para piorar a situação de Trump, conforme publicado pela Rádio Vaticano, um jornalista perguntou diretamente ao papa sua opinião a respeito das declarações de Donald Trump e sobre seu projeto de fazer um extenso muro na fronteira com o México. Francisco disse que quem “uma pessoa que pensa somente em levantar muros, seja onde seja,  e não a fazer pontes, não é cristã”.  E mais adiante: “este homem não é cristão, se diz isto assim”.

Como era esperado, a fala de Francisco repercutiu e ela obrigou o candidato republicano a continuar o assunto. A primeira resposta foi ácida:

“Se um dia o Vaticano for atacado pelo Estado Islâmico, que é algo que todos sabem que é o desejo dessa facção, eu tenho certeza que o papa desejaria e rezaria somente para que Donald Trump tivesse se tornado presidente, porque isso não iria acontecer”, afirmou o republicano.

Contudo, num programa de entrevistas da CNN, transmitido nesta quinta-feira (18/02), Trump reduziu o tom e usou de humor para tratar do assunto. “Vou te dizer, ele tem um muro enorme no Vaticano”, disse o candidato.

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Mais tarde, no debate com outros candidatos, também transmitido pela CNN, o rebuplicano disse que “não se tratou de uma briga”, que considera Francisco um líder “maravilhoso” e que poderia se encontrar com o papa quando ele quisesse.

Imigração

A imigração se tornou um assunto crítico para o catolicismo nos EUA, não apenas por razões humanitárias, mas também porque os imigrantes constituem cada vez mais a base da Igreja católica norte-americana. Estima-se que hispânicos, muitos deles imigrados recentemente, representem hoje um terço dos católicos dos EUA e que até 2050 grupos minoritários ultrapassaram católicos brancos em termos de números.

De forma geral, essas minorias apresentam taxas maiores de fé e prática do que católicos brancos, o que ajuda a colocar a defesa dos imigrantes no topo da lista de prioridades de muitos bispos norte-americanos.

Allen Jr. destaca que Trump não é o único candidato republicano a ser duro com a questão da imigração, mas é o único que usou uma entrevista na Fox Business News para atacar o papa e também o único que levou chamadas de atenção do Vaticano com o papa se aproximando da fronteira.

Embora seja claro que a parada de Francisco na fronteira dificilmente foi direcionada especificamente para Trump, é igualmente claro que o candidato, que propôs construir um muro de 8 bilhões de dólares ao longo da fronteira – que incluiria o exato ponto em que o papa esteve –, não pode exatamente reivindicar do evento algum tipo de apoio.

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Pode ser que Trump não esteja especialmente preocupado com tudo isso, uma vez que atingir o eleitorado católico não é, por enquanto, uma das prioridades de sua campanha.

Os católicos republicanos que valorizam a seriedade e o comprometimento religioso provavelmente já escolheram outra opção. De forma especial, está aberta a questão sobre quão grande será a influência negativa na campanha de Trump do atrito com o papa sobre a imigração, já que a maioria dos católicos de esquerda jamais apoiaria Trump em qualquer circunstância.

Para Allen Jr., o embate entre Trump e o papa serviu como um despertar para os candidatos de todo o país sobre o que significa corresponder ao apelo dos católicos. Ser visto como pró-aborto não é uma boa maneira de fazer isso, mas ser visto como anti-imigrantes também não é.

 

Com informações de Crux.

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Colaborou Felipe Koller