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autor do Prosopon
João Pedro da Luz Neto

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Viver no constante diálogo: a filosofia de Ferdinand Ebner

A base do verdadeiro diálogo é o amor ao outro, respeito à sua dignidade, e neste diálogo com os irmãos, encontramos o Outro que é Deus.

coração

Uma nome pouco conhecido, mesmo dentro do meio filosófico católico, é o de Ferdinand Ebner. Austríaco, nasceu em uma família católica no ano de 1882 e tornou-se ateu na adolescência. Após alguns anos, retornou ao catolicismo, religião que aderiu até sua morte, em 1931.

Se não estamos acostumados com seu nome, suas ideias, no entanto, serão mais familiares, pois influenciaram profundamente muitos filósofos no século XX, em especial os personalistas, que se centram na reflexão sobre a pessoa para a constituição de um corpus filosófico integral. Para este influente filósofo, o nosso “eu” não está isolado, mas existe numa relação, a relação com o “tu”. Por isso, o ser humano é, antes de tudo, um ser dialogal.

Ademais, essas duas realidades espirituais – o “eu” e o “tu” – pressupõem a linguagem. Por isso a Palavra é constitutiva de nossa existência, é o que faz dos humanos, humanos. É a Palavra que constitui a linguagem e então o nosso pensamento, a nossa consciência de nós mesmos e de que existem o “eu” e o “tu”. Somos, então, radicalmente dependentes desta Palavra que dá vida ao mundo.

Ora, o início do evangelho de João já fala sobre esta Palavra (Verbo, em algumas traduções) que existe antes de tudo ser criado: a Palavra de Deus. É ela quem nos garante a faculdade da linguagem e é este o dom mais precioso que temos por participarmos da vida divina. Diríamos que não somos feitos à imagem e semelhança de Deus porque Deus é antropomorfizado, como aparecem em algumas pinturas, mas porque somos capazes da Palavra, ele cria em nós a faculdade de dialogarmos.

Portanto, se existimos, o fazemos por estarmos em Deus, num constante diálogo com Ele. Esse eterno “Tu” (que garante o nosso “eu”) precisa ser encarado mediante a relação pessoal, e não como um objeto preso em nós mesmos. Conseguimos isso no diálogo com os outros “tu”, as outras pessoas de nossa convivência. É no rosto delas que vemos e temos a possibilidade de nos encontrarmos com a realidade divina.

Este encontro, infelizmente, pode ser evitado. Se o fizermos, cairemos no monólogo do isolamento, um centralismo exagerado em nossas próprias figuras, e voltamos as costas para os outros humanos e Deus. No entanto, não é possível nos esquecermos que somos capazes de abandonar esse monólogo, através do último sustento entre o “eu” e o “Tu”, que é Cristo, a Palavra de Deus. Em sua existência, Ele nos mostra o verdadeiro amor.

No século XXI, vemos com clareza os efeitos da falta de diálogo: seja nos extremismos de alguns discursos políticos brasileiros ou no fundamentalismo que assombra o mundo ocidental, de modo particular a Europa. Diante da possibilidade do terror, é improvável que pensemos no diálogo como solução. Muitas vezes porque este é apresentado num discurso evasivo ou histérico. Entretanto, se o diálogo fosse compreendido da maneira mais plena, isto é, na base do próprio existir humano, levaríamos em consideração o respeito ao mistério que é o outro “eu” diante do “Tu”, e estaríamos mais propensos a amá-lo, a querer-lhe o bem extremo, que é precisamente a permanência dele neste diálogo fundamental.

Leia também:

“Introdução ao Personalismo”, de Juan Manuel Burgos

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