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Antonio More/Gazeta do Povo
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Entrevista

Pondé: diferente dos EUA, os evangélicos do Brasil são pragmáticos na política

O filósofo conversou com o Sempre Família sobre a espiritualidade hoje – tema de seu novo livro – e sobre a sua relação com o cenário político do país neste ano de eleições.

Um novo lançamento do filósofo Luiz Felipe Pondé chegou às livrarias no mês passado. Depois de Filosofia para corajosos e Amor para corajosos, também pela Editora Planeta, Pondé volta a um dos temas fundamentais de seu trabalho e publica Espiritualidade para corajosos. “Ateu não praticante”, como se define, o filósofo é professor de Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde também coordena o Núcleo de Estudos de Mística e Santidade.

Segundo o autor, “a espiritualidade é um tema urgente demais para deixá-lo nas mãos dos pregadores de diferentes manuais de salvação”. No livro, Pondé discorre a relação da espiritualidade com temas tão diversos como o erotismo, a inteligência artificial, a institucionalização, a política e o ateísmo. Na capital paranaense para o lançamento da obra nas Livrarias Curitiba, o filósofo conversou com o Sempre Família sobre a espiritualidade hoje e sobre a sua relação com o cenário político do país neste ano de eleições.

Sempre Família: No livro, você critica o que chama de commoditização da espiritualidade, isto é, a transformação da espiritualidade em um produto de consumo fácil.

Luiz Felipe Pondé: A commoditização da espiritualidade gera uma espiritualidade específica, segundo a qual não basta que Jesus ajude você a lidar com o pecado, que sequer existe nessa visão: ele tem que ajudar você a emagrecer. É uma espiritualidade bastante narcísica, para um consumidor que quer uma versão desidratada de Buda. É a espiritualidade light, que é uma espiritualidade vagabunda. Você a adquire em um workshop de três dias ou em um livro de autoajuda que acabou de ler. Dessa forma ela não toca nenhuma das notas que as grandes tradições espirituais tocam: o bem e o mal, a consciência moral, o medo da finitude, o conflito com o sucesso e o fracasso.

"Certa elite intelectual tinha uma expectativa de que a espiritualidade tivesse acabado, o que não aconteceu", diz Pondé (foto: Antonio More/Gazeta do Povo)
“Certa elite intelectual tinha uma expectativa de que a espiritualidade tivesse acabado, o que não aconteceu”, diz Pondé (foto: Antonio More/Gazeta do Povo)

SF: Alguns autores enxergam nas últimas décadas um ressurgimento da espiritualidade. Você concorda com essa leitura ou vê esse movimento como uma onda de commoditização da espiritualidade?

LFP: Essa ideia de retomada da espiritualidade vem daquela visão de que ela teria morrido devido à crítica à religião feita por autores como Marx, Nietzsche e Freud. Certa elite intelectual tinha uma expectativa de que a espiritualidade tivesse acabado, o que não aconteceu. O retorno da espiritualidade, por isso, é falso – no sentido de que ela nunca foi embora. Mas é verdade que temos também novas formas de espiritualidade que passam pelo fenômeno da commoditização.

SF: Muitas pessoas se dizem “espirituais”, embora não ligadas a uma tradição religiosa. O que esse fenômeno da deinstitucionalização da espiritualidade tem a ver com a sua commoditização?

LFP: A palavra “espiritualidade” nasce no século XVII associada ao que os católicos chamam de “ciência dos santos”, que era o estilo de vida de pessoas que tinham intimidade com Deus. A espiritualidade estava, portanto, institucionalizada dentro da Igreja Católica, mas por influência do romantismo, que fez uma dura crítica à institucionalização, acabou se tornando uma província à parte da religião. Isso estava associado à ideia de que na espiritualidade você poderia ter contato com a divindade, fazer releituras de tradições, diminuir rituais e eliminar aquilo que não lhe interessava. Mas dessa forma a desinstitucionalização acaba produzindo uma commoditização da espiritualidade. O grande problema da espiritualidade romantizada é que ela não tem uma dimensão prática. E a espiritualidade sem prática não funciona.

SF: Nesse sentido, a fragilidade da desinstitucionalização acaba mostrando que a religião como instituição e como tradição ainda tem muito fôlego pela frente?

LFP: Parafraseando Lacan, talvez não teremos mais no futuro nem filósofos nem psicanalistas, mas ainda teremos padres. A religião nunca vai acabar.

O que os evangélicos querem nas eleições 2018?

SF: Essa relação da espiritualidade com a prática que você citou envolve um vínculo entre espiritualidade e engajamento sócio-político ou isso seria uma outra forma degenerada de espiritualidade?

LFP: A relação da espiritualidade com o que hoje chamamos de engajamento sócio-político já está na Bíblia. Os profetas eram engajados. Jesus Cristo era engajado. Os apóstolos eram engajados. Não acho, porém, que toda forma de espiritualidade implique em engajamento sócio-político. Mas o que eu chamo no livro de “espiritualidade política” é outro fenômeno: é quando a política toma o lugar da espiritualidade. Quando você acha, por exemplo, que o Brasil não faz sentido sem o PT ou que o mercado é um ser inteligente que resolve tudo. Isso eu critico no livro. Mas existem várias formas de espiritualidade, inclusive na tradição judaico-cristã, que implicam legitimamente um engajamento sócio-político.

SF: No Brasil, a relação entre religião e política é uma constante nas últimas décadas, seja na relação entre a teologia da libertação e a esquerda, sobretudo no Partido dos Trabalhadores, seja no peso que os políticos evangélicos têm no Congresso. Como você vê esse cenário nas eleições deste ano?

LFP: Os eleitores influenciados pela teologia da libertação vão migrar ou para Marina Silva ou para Ciro Gomes. Mas como essa eleição é atípica, tem uma pulverização de posições e conta com a influência das redes sociais – e não estamos acostumados a aquilatar o que isso significa –, esse eleitorado não vai ser definitivo para a vitória de ninguém. Já os grupos evangélicos estão alinhados com Bolsonaro. Uma parte do apoio dele vem dos movimentos jovens de direita radical, outra da elite das forças armadas com medo da desagregação social, outra da estrutura do PSL e a outra dos evangélicos. Porém, os evangélicos do Brasil, diferentemente daqueles dos Estados Unidos, têm mostrado ao longo dos anos um enorme pragmatismo político. Muitos apoiavam o PT até ontem. Marco Feliciano apoiava o PT. Enquanto os evangélicos dos Estados Unidos estão alinhados com as alas mais à direita do Partido Republicano há décadas, demonstrando certa correção político-ideológica, os evangélicos no Brasil nunca tiveram ideologia. Eles sempre foram oportunistas políticos. Fazem uma política fisiológica ao estilo PMDB. Agora, com a derrocada do PT e a ascensão de grupos de direita, os evangélicos podem fazer como fizeram no caso do Santander: mimetizar uma guerrilha cultural e começar a falar de bons costumes. Eu acredito que os evangélicos estão do lado de Bolsonaro, que também tem esse discurso, por uma questão de oportunismo histórico, para repetir o movimento dos evangélicos dos Estados Unidos.

Como a Marcha para Jesus tornou-se símbolo da força dos evangélicos no Brasil

SF: Muitos desses grupos de jovens de direita radical que você citou, evangélicos e católicos, costumam se compreender como defensores da tradição cristã. Como você avalia esse fenômeno dentro do quadro da espiritualidade?

LFP: Acho que esses grupos associam a espiritualidade a uma espécie de nostalgia institucional de costumes. Não é um tema de que eu trato no livro, porque não me interessa, digamos assim, a espiritualidade reacionária. Mas acho que nesse caso, sim, você tem uma espiritualidade mais próxima da direita evangélica ou católica dos Estados Unidos, ligada à oposição ao aborto e à defesa do casamento heterossexual, e que tem o seu papel no debate político. Eu sou alguém completamente alheio à religião, ateu e sem prática religiosa, mas sei que algumas das discussões que eu faço agradam aos grupos evangélicos. Tanto que eles me adoram, mas à distância. Só para dar um exemplo: escrevi na segunda-feira (18/06) uma coluna na Folha de S. Paulo criticando as escolas que não fazem divisão de sexo nos banheiros das crianças. Chamei isso de tortura. Eu sei que os evangélicos adoram essa discussão, mas na verdade não estou nem um pouco preocupado com o que eles adoram ou não, porque essa minha visão está ancorada em uma percepção liberal-conservative não-religiosa que entende que esses intervencionismos na sexualidade são movidos por modas, porque ninguém sabe como isso funciona. Isso não significa que você não deve ensinar as crianças a respeitar as diferenças de comportamento sexual, mas outra coisa é dizer que existe neutralidade de gênero na humanidade, porque não há nenhuma prova de que isso seja verdade. Isso é um absurdo que pode criar uma série de problemas de identidade sexual, como já está criando.

SF: Esses movimentos de direita que vinculam suas pautas a questões religiosas são outra forma da política tomar o lugar da espiritualidade, como acontece com algumas teologias da libertação?

LFP: Acho que sim, mas não exatamente de forma simétrica. Isso porque aqueles mais à esquerda que veem a política como religião veem que a política enquanto tal é redenção. Já os grupos de direita veem a tomada e o aparelhamento das instituições políticas como um meio de pôr em pauta questões morais. Existe um liberalismo popular difuso nos evangélicos, porque eles vêm de uma tradição protestante que dá valor ao trabalho e ao sucesso – uma espécie de “espírito do capitalismo” de Weber barateado –, mas especificamente a sua prática política me parece muito mais de aparelhamento da máquina em favor de pautas morais. Já a esquerda quer tomar o poder em favor de pautas político-econômicas utópicas. Os evangélicos não são utópicos. Eles só querem reprimir mesmo.

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