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Márcia e Lariany/ Arquivo Pessoal
Márcia e Lariany/ Arquivo Pessoal
Defesa da Vida

Mulher escolhe ficar cega para não abortar a filha

Márcia teve uma severa inflamação nos olhos e na época os médicos indicaram um procedimento que lhe traria 80% da visão, mas ao custo de abortar seu bebê

Ainda muito nova, Márcia Bonfim Vieira foi colocada diante de uma situação em que precisava decidir se ficaria cega para sempre ou teria seu bebê. Ela engravidou de seu marido aos 15 anos e com cinco meses de gestação começou a sentir algumas dificuldades para enxergar: os olhos ficavam vermelhos, coçavam, doíam e ela passou a ver as coisas duplicadas. O diagnóstico era de Uveíte, uma inflamação muito grave no fundo dos olhos que trouxe outras doenças para Márcia como catarata interna e descolamento de retina bilateral.

Morando em São João do Ivaí, no interior do Paraná, Márcia buscou ajuda de especialistas em Curitiba. Quando começou o tratamento precisou ficar dez dias no hospital, pois já estava com pouca visão, mas acabou saindo de lá completamente cega. Ela conta ao Sempre Família que ficou somente preocupada mas achou que seria algo temporário. “Como eu estava grávida, eu tinha uma força maior, tinha por quem lutar. Eu sabia que precisava estar bem para a minha filha estar bem”, disse.

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O caso de Márcia foi apresentado a uma equipe de oftalmologistas dos Estados Unidos que estava a caminho de Curitiba para realizar alguns estudos. Ao analisar a situação juntamente com a equipe local, os médicos chegaram à conclusão de que poderia ser feita uma cirurgia a laser que recuperaria até 80% da visão de Márcia, porém o procedimento não garantia a saúde do bebê. A equipe então sugeriu a interrupção da gestação para obter êxito na cirurgia. “Eu levantei, olhei para minha barriga e comecei a chorar. Eu pensava: ‘Meu Deus, eu vou perder esse bebê que está dentro de mim? Eu vou perder essa vida? ’”, diz Márcia.

Com medo, mas tendo o apoio da mãe, ela decidiu seguir com a gestação: “Eu disse a eles: ‘Se for para tirar o meu bebê para poder voltar a enxergar, eu não quero enxergar nunca mais!’”, lembra.  Com apenas 15 anos, ela explicou à equipe médica que tinha uma vida dependendo dela para viver, que ela queria ser mãe e não iria abrir mão disso. Segundo Márcia, os médicos disseram que a entendiam, mas que ela ainda era muito nova e poderia ter outros filhos mais tarde. Eles ainda alertaram ela na época, de que a criança poderia vir com alguma deficiência ou talvez nem chegasse a nascer. “Eu sou nova sim, mas já sei o que é melhor para mim. Posso ter outros filhos depois, mas nunca serão essa mesma que está dentro de mim”, disse ela na ocasião.

Assim como muitos familiares e amigos, os médicos acabaram respeitando a decisão de Márcia. Então, em julho de 1994, nasceu Lariany. No início, o apoio da família foi muito importante para os cuidados com o bebê, mas depois Márcia já conseguia fazer praticamente tudo sozinha. “Quando nasce um filho, nasce uma mãe, então quando minha filha nasceu, eu não tinha dúvida nenhuma de que iria conseguir cuidar dela por toda a minha vida”, explicou.

O esporte que transformou sua vida

Após o diagnóstico de que a cegueira era irreversível, no ano 2000, Márcia mudou-se para Maringá. Nessa época, ela já havia se separado do pai de Lariany e encontrou ali um esporte chamado goalball, desenvolvido para deficientes visuais e que deu mais sentido ainda à sua vida. Ao entender como funcionava, quis aprender a modalidade e, depois de um ano treinando intensamente, Márcia já foi convocada para a seleção brasileira de goalball. Hoje ela joga pelo time do Santos e passou a ser remunerada.

Os anos seguintes foram de muitos campeonatos. Márcia chegou a defender o Brasil em vários países, incluindo jogos nas paraolimpíadas. Em um dos treinos no ano de 2005, conheceu seu atual esposo, Ivanilson, que é cego de um olho e enxerga 5% com o outro. Depois de encerrar uma sequência de competições internacionais, em 2014, Márcia e Ivanilson decidiram ter mais um filho. Apesar do receio do esposo sobre a possibilidade de o filho nascer com deficiência visual (a deficiência de Ivanilson é genética), Márcia afirmou que se acaso a criança nascesse cega, ela nasceria na família certa e teria todo o suporte. Lorena nasceu em 2015 sem nenhuma deficiência.

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Márcia conta que foi uma experiência muito diferente ser mãe novamente depois de 20 anos, mas que é “como andar de bicicleta, a gente nunca esquece”. Entre algumas dificuldades na amamentação (Lorena tinha refluxo), o casal foi aprendendo junto a cuidar da segunda filha. Desta vez, Márcia preparou o enxoval sozinha e o casal procura ser bastante presentes na educação da filha. Consciente da deficiência dos pais, hoje com três anos e sete meses, Lorena já “coloca a mão” dos pais em algo que quer mostrar.

Para a atleta, tudo o que precisou abrir mão por suas filhas valeu a pena. “São elas que me fazem lutar, ter forças e nunca desistir”, afirma. “A perda da visão ficou para trás, porque depois que aprendi que eu poderia viver e não apenas sobreviver, eu sou muito feliz com a vida que eu tenho e escolhi ter. Se fosse preciso fazer tudo de novo por elas, eu faria”, conclui Márcia.

 

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