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Artigo, Religião

Mudança ou continuidade? O que esperar do documento do papa sobre a família

Depois do Sínodo sobre a Família ter tratado de assuntos polêmicos, o pontífice deve tornar públicas suas conclusões nesta sexta-feira

Os quatro rostos do amor humano

Conhecer melhor o que Francisco pensa sobre a família, antes e depois da sua eleição ao pontificado, ajuda a entender o que devemos esperar da sua exortação Amoris Laetitia (“A alegria do amor”). A Santa Sé publicará o texto nesta sexta (08/04). O documento é o produto final da reflexão de duas assembleias do Sínodo dos Bispos. A primeira delas foi extraordinária, ocorrida em 2014, e outra ordinária, em 2015, sobre “os desafios pastorais da família no contexto da evangelização” e “a vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. É normal que após cada assembleia ordinária, o papa reúna as contribuições dos bispos e faça uma conclusão, dando orientações para a vida da Igreja.

Os trabalhos das duas assembleias sobre o tema da família causaram bastante controvérsia; o diálogo entre os bispos foi completamente livre e aberto e houve todo tipo de proposta e muito desacordo. Nas palavras do papa, no encerramento da assembleia de 2014, isso mostrou a vitalidade da Igreja Católica, que não tem medo de “sujar as mãos discutindo, animada e francamente, sobre a família.” O próprio Francisco sofreu diversas tentativas de ser rotulado, por parte da mídia e do público em geral, como um inovador contrário à doutrina tradicional da Igreja sobre o casamento e a família. Aqui no Sempre Família já fizemos uma coletânea de ensinamentos de Francisco sobre a família que evidencia a continuidade entre o seu ensinamento e o de seus antecessores.

Quem se depara com textos de Francisco anteriores à sua eleição à Sé de Roma percebe como a sua visão da importância do casamento da família é consistente e, sem se opor ao ensinamento dos seus antecessores, tem um sabor original e uma abordagem muito interessante. Em uma homilia em 2007, Jorge Mario Bergoglio, então arcebispo de Buenos Aires, falava sobre a importância da família enquanto ambiente que reconhece a dignidade da pessoa por si mesma, e não pelo seu status ou por suas habilidades. “A família é condição necessária para que uma pessoa tome consciência de sua dignidade e a valorize”, dizia ele. “Em nossa família nos trouxeram à vida, nos aceitaram como valiosos por nós mesmos, na família somos amados como somos, nossa felicidade e nossa vocação pessoal são valorizadas para além de todo interesse”.

Essa dignidade está ligada à consciência de nossa existência como dom de Deus, o que inclui aceitar com alegria e gratidão a natureza do próprio corpo e das relações familiares, como Francisco ressaltou em sua encíclica Laudato Si’ (n. 155). Nesse sentido, a eliminação da diferença sexual, como proposta pela ideologia de gênero, “é o problema, não a solução”, como disse Francisco em 2015. Por isso, já em 2007 ele exaltava a peculiaridade do olhar cristão, que “olha o coração das coisas”: “Só uma mãe e um pai podem dizer com alegria, com orgulho e com responsabilidade: vamos ser pais, concebemos o nosso filho. A ciência olha isso desde fora e faz digressões acerca da pessoa que não partem do centro: da sua dignidade”.

A diferença e a complementaridade entre os sexos e os papéis específicos das relações familiares não podem ser perdidos de vista porque a vida humana, por si mesma, “não é ‘individual’, mas pessoal-social”, como dizia Bergoglio também em 2007, em uma intervenção numa assembleia da Comissão Pontifícia para a América Latina, em Roma. Nesse discurso, o cardeal defendia que a estabilidade e a fecundidade do casamento são dois valores essenciais da família, porque dão origem a quatro relações fundamentais da pessoa: a paternidade, a filiação, a fraternidade e a nupcialidade. Para o papa, esses papéis estão na base da sociedade, que sem eles perde a sua consistência. Ele os chama de “os quatro rostos do amor humano”.

Essas quatro relações permitem o nosso desenvolvimento integral, porque desde o coração nos abre cada vez mais ao exterior. “Não é possível formar um povo, sentir-se próximo de todos, levar em consideração os mais afetados e excluídos, abrir-se à transcendência, se no coração de alguém estão fraturadas essas relações básicas”, afirmava Bergoglio. Todas as nossas relações são moldadas a partir desse esquema quádruplo, da atenção aos mais pobres – que deve ser verdadeira relação de fraternidade – até a experiência religiosa – que é constituída por uma relação de fraternidade com Cristo e de filiação divina.

Essas quatro relações são, segundo Bergoglio, “o valor fundante de todos os demais valores”. Justamente por isso, tudo o que Francisco tem ensinado sobre o casamento e a família está relacionado a essas noções. Em 2007, em Roma, o cardeal Bergoglio afirmava que há dois modos de cultivar essas relações fundamentais: traduzindo-as em ritos e costumes aceitos por toda a sociedade – o que não é o caso hoje – ou vivê-las em contraposição com a sua ausência “lá fora”.

É o que podemos esperar da exortação Amoris Laetitia: uma reafirmação e um aprofundamento do valor da família como escola do amor e da misericórdia, em que experimentamos o amor e aprendemos a amar, não segundo as nossas próprias conveniências – de acordo com as quais qualquer coisa pode ser chamada de amor – mas segundo a dignidade de nossa existência como dom para a comunhão. Uma abordagem, que, longe de ser uma teoria abstrata, está fundada no calor da experiência de cada homem e de cada mulher.

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