Observe sinais de competitividade, como atitudes dominadoras, não admitir perder e não reconhecer méritos alheios.| Foto: Everton Vila/Unsplash
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Ser melhor do que o outro, vencer o oponente e superar as capacidades do próximo são condutas competitivas, comumente encontradas no meio esportivo.

Poém, infelizmente, em alguns casamentos esse tipo de comportamento pode estar presente, uma receita pronta para desgastes no convívio do casal.

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Muitas vezes, as diferenças no ritmo de funcionamento e de tomadas de decisão de cada parceiro podem ditar quem acaba tendo mais poder e influência numa relação, e isso se confunde com competição conjugal, distingue Maria Silvia Todeschi de Sousa, psicóloga de Família e Casais.

No entanto, a necessidade de autoafirmação por parte de um dos cônjuges, seja por insegurança, seja por baixa autoestima, cria um alerta sobre essa competitividade. A psicóloga Rosiane Martins de Souza Teodoro orienta os casais sobre a importância de observar os sinais que demonstram traços negativos de competitividade no parceiro, como atitudes dominadoras, que não admitem perder e quase nunca reconhecem os méritos ou conquistas de outras pessoas.

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“As pessoas competitivas, normalmente, focam em alcançar resultados para si, apresentando dificuldades em atividades grupais, pois querem a centralidade da atenção e têm dificuldade de dividir as conquistas”, exemplifica Rosiane.

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Relação em segundo plano

Além disso, reconhecidas as características competitivas, é preciso descobrir se a competitividade é centrada ou na relação afetiva, ou fora dela. Isso porque uma pessoa competitiva, por não medir esforços para obter seus resultados, assume funções com altas exigências, o que, inevitavelmente, faz com que o relacionamento fique sempre em segundo plano.

Quando ambos os cônjuges são competitivos, Maria Silvia destaca que é grande a possibilidade de acontecer um distúrbio na relação, impedindo o equilíbrio e a alternância saudável de complementariedade nas tarefas, mesmo quando cada um ocupa posições distintas.

“São, na maioria das vezes, aqueles relacionamentos que iniciam com a admiração mútua pelo esforço e conquistas do outro, mas que, na relação cotidiana, acaba se tornando o maior motivo de desgaste entre eles”, explica Rosiane.

Por que a competição desgasta a relação?

Uma das maiores dificuldades para a pessoa competitiva é enxergar o outro como um cooperador, vendo-o sempre como um adversário. “Nesse sentido surgem as críticas excessivas, dificuldades para se colocar no lugar do outro, ampliando as brigas e a sensação de que não é compreendido ou amado”, conta Rosiane.

“Quando um casal compete, deixa-se de negociar e valorizar as competências do parceiro, o que desgasta o relacionamento saudável, já que ambos devem ter o mesmo grau de interferência no seu vínculo”, explica Maria Silvia. “O altruísmo, a admiração e o respeito devem se sobrepor à necessidade de autoafirmação e de competição de alguém”.

Remuneração no centro do conflito

Uma das competições mais comuns entre os casais está relacionada à remuneração. Quando isso se sobressai a situação acaba equiparando o relacionamento a uma relação laboral, fragilizando o compromisso afetivo.

“Muitas vezes a competição ligada a maior remuneração acontece quando um ou ambos atribuem relação de maior poder decisório ao maior rendimento financeiro. Esse funcionamento ignora a importância de outras tarefas e papeis desempenhados pelo cônjuge que tem menor remuneração e pode levar a muitos problemas, muitas vezes até mesmo ao divórcio”, alerta Maria.

Existe limite sadio da competitividade?

Se existem limites sadios para a competitividade eles são tênues, portanto devem ser observados de perto. Rosiane acredita que quando o casal consegue compreender seus pontos fortes e fracos, dialogando sem rebaixar o outro para se sentir melhor, os perfis competitivos podem ser eficazes.

“Ocorre que o diálogo entre casais competitivos é raro, pois aquele que é competitivo tende a querer dominar a conversa, tendo a última palavra e a razão. Assim, se o outro parceiro for mais condescendente, tende a calar-se para manter uma boa harmonia”, alerta a psicóloga.

Nesses casos, quando a competição visa a autoafirmação e a desqualificação do parceiro, a relação tende a adoecer, pois o outro cônjuge tende a sofrer calado.

Rosiane acredita que se levada a cabo a analogia com os esportes, um bom competidor nunca excede os limites se entender que a maior luta deve ser travada consigo mesmo e com seus resultados, desafiando-se a ser uma pessoa melhor que ontem, inclusive no ambiente familiar.

Além disso, “é possível que um reconheça e legitime ao parceiro certo poder decisório, compreendendo isso como parte do contrato conjugal e da dinâmica estabelecida. Quando isso atende às expectativas de ambos, o terreno fica saudável para o casamento”, explica Maria Silvia.

Como lidar com o cônjuge competitivo?

Parceria e competitividade são palavras antagônicas. No entanto, a partir do reconhecimento dessa segunda característica e, principalmente, do desejo de mudança, essa dificuldade pode, sim, ser vencida pelo casal.

“Se o indivíduo conseguir usar do funcionamento mais competitivo para estimular o crescimento do parceiro, elogiando e estimulando seu crescimento, é possível encontrar um bom convívio”, diz Maria Silvia. Em alguns casos, o cônjuge menos competitivo, com afeto e diálogo, pode ir pontuando ao outro suas atitudes competitivas, atenuando e melhorando significativamente a relação.

Contudo, Rosiane destaca que, em alguns casos, pode ser necessário um acompanhamento psicológico ou individualizado, ou familiar para que o casal possa se reconectar.

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Dicas práticas

Para ajudar você que, porventura, tenha um cônjuge competitivo, as psicólogas Rosiane e Maria Silvia apresentam algumas dicas que podem facilitar o convívio com o competidor:

  • Diálogo positivo: o competidor não sabe lidar com situações em que recebe críticas porque tem um alto nível de criticidade. Assim, conversas objetivas e claras, explicitando as percepções e expectativas do funcionamento competitivo, surtem mais efeito.
  • Momento do casal: o perfil competitivo tende a não gostar de situações que se encontra apenas com a família, afinal ter outros casais possibilita um ringue invisível onde pode exibir suas conquistas. Portanto, criar na rotina um dia da semana somente para o casal aumenta a possibilidade de diálogo e conhecimento entre os parceiros.
  • Elogie: como o perfil competitivo normalmente tem baixa autoestima, através dos elogios, aos poucos sentirá menos necessidade de buscar competir, por receber uma fonte contínua de fortalecimento, mesmo quando não houver um motivo ou data específica.
  • Autoconhecimento: incentivar o outro para que perceba como o autoconhecimento ajuda a fazer coisas que não sabia ser capaz de fazer, elogiando suas novas habilidades.
  • Autonomia e independência: é importante que o parceiro do cônjuge competitivo sinta-se seguro de suas capacidades e competências, para não se fragilizar com as possíveis críticas que pode receber.
  • Canalização da competitividade: lembre-se que se não estivermos lidando com uma pessoa competitiva acompanhada de algum tipo de patologia, tal característica poderá ser usada para crescimento profissional e realização de sonhos.
  • Humor: busque levar com humor as situações mais críticas para dar leveza ao relacionamento.
  • Psicoterapia: não guarde tudo calado, sujeitando-se à criticidade de uma pessoa muito competitiva. Seja assertivo, buscando ajuda através de psicoterapia individualizada ou de casal.