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Mateus Leme

Biblioteca Básica

Boa literatura, sem firula

“Grande Sertão: Veredas” — suco infinito…

"Grande Sertão: Veredas" é possivelmente a maior obra literária brasileira de todos os tempos. Um livro imperdível, cheio de substância

Jorge Brazil, em CC BY 2.0
Jorge Brazil, em CC BY 2.0

Minha reação, ao abrir pela primeira vez Grande Sertão: Veredas e ler o primeiro parágrafo, foi uma forte vontade de fechar o livro e sair correndo. Não era possível: eu já não era mais um neófito em leituras, e mesmo assim só conseguia entender uma palavra a cada três! Para piorar, folheei o volume e descobri que não havia capítulos: a obra toda era um monstruoso monólogo de mais de seiscentas páginas!

Felizmente, meu espírito de aventura sentiu-se desafiado, e continuei a ler até o fim. Sábia decisão, porque, uma vez que a mente se acostuma com a incrível e maravilhosa linguagem de Guimarães Rosa, depara-se com o que é, em minha modesta e nada estudada opinião, a maior obra de todos os tempos da literatura brasileira.

Grande Sertão: Veredas é um livro que pode ser lido e relido inúmeras vezes, ou mesmo aberto ao acaso em qualquer ponto. Nunca se esgota; cada página parece conter suco infinito. A linguagem é “carnuda”, poética em um grau quase inacreditável, cheia de neologismos, expressões locais, contrações curiosas. Às vezes, parece impossível de compreender, pois vai até o limite do inteligível, mas não o ultrapassa, e se lemos com calma — ou em voz alta, muitas vezes — o sentido acaba surgindo.

Além disso, o texto é recheado quase até transbordar com pérolas de sabedoria popular, muitas vezes cheias de humor, como “pão ou pães, é questão de opiniães”, ou de bom senso, como “a colheita é de todos, mas o capinar é sozinho”. Ou ainda, repletas de uma profundidade impressionante, como esta incrível definição sobre o nojo: “O nojo é invenção do Que-não-há [o diabo], para impedir que se tenha dó”.

É curioso, no entanto, que — talvez por causa da própria exuberância da linguagem — muitas pessoas até entendem a trama, mas não conseguem perceber o que o Grande Sertão de fato é. Meus professores no colégio, por exemplo, explicaram com detalhes toda a história de como Riobaldo, o protagonista, torna-se jagunço no bando de Joca Ramiro e como este é assassinado por outro chefe, Hermógenes; como Riobaldo deseja vingar-se, junto com seu amigo Diadorim; como, ao longo do livro, Riobaldo percebe, para sua grande inquietação, que (apesar de ser hetero) está se apaixonando por Diadorim; como, finalmente, decide fazer um pacto com o diabo, que o livro não revela se chega ou não a consumar-se.

Não vou entrar em mais detalhes sobre o enredo para não estragar com spoilers a leitura de ninguém, mas a verdade é que, embora todas estas coisas sejam a vestimenta da história, nenhuma delas vai realmente ao âmago, nenhuma atinge o que de fato o livro é. Todo o texto, toda essa espécie de “causo” imenso e enrolado, na verdade não passa de um homem na tentativa de acalmar sua consciência. Esta é a essência do livro, e sua chave de leitura. Riobaldo tem, pesando na consciência, a dúvida sobre se de fato vendeu a alma ao demônio e, embora no fundo acredite que sim, tenta justificar-se e acalmar sua inquietação, explicando o caso com uma riqueza quase excessiva de detalhes, buscando a concordância de seu interlocutor, e volta-e-meia entremeando suas palavras com expressões de dúvida sobre a existência do diabo e de Deus.

Como disse, é curioso que as pessoas enfoquem tanto o enredo, e esqueçam este aspecto da psicologia de Riobaldo, que é o que dá todo o sentido ao livro. Talvez seja porque o esforço necessário para decifrar a linguagem é tão grande que mal dá para acompanhar a trama. Digo-o porque, curiosamente, este problema parece não acontecer na tradução do livro para o inglês, a começar por seu título, que vai direto ao ponto: The Devil to Pay in the Backlands. Como o texto fica “descascado” de sua linguagem peculiar (dano irreparável, reconheço), sobra apenas o trabalho da análise da história.

Enfim, já escrevi muito mais do que planejava. Mas não me arrependo: tudo o que se possa escrever sobre este livro monumental é pouco. Faça um favor a si mesmo, e compre Grande Sertão: Veredas. Respire fundo, e embrenhe-se nele, como se estivesse entrando no meio da mata. Não se assuste com o tamanho; livro bom é como sorvete: quanto maior, melhor. E este é um verdadeiro diamante bruto, um diamante sertanejo, pronto para ser lapidado.

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