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Felipe Koller

Acreditamos no Amor

Onde há amor, Deus aí está.

“Tive que aprender a fazer poesia a partir da realidade”

Nascido no interior de São Paulo, Pedro Carlos Zilli vive como missionário na Guiné-Bissau há mais de 30 anos.

DOM PEDRO CARLOS ZILLI

A Igreja Católica costuma celebrar o mês de outubro como Mês Missionário. Para este ano, porém, o Papa Francisco determinou a sua celebração como Mês Missionário Extraordinário, a fim de comemorar os 100 anos da carta apostólica Maximum illud, de Bento XV, e enfatizar mais uma vez a dimensão missionária da Igreja. Aqui no Acreditamos no Amor, comemoraremos este mês com uma série de entrevistas com missionários enviados para diversas partes do mundo para anunciar Deus-Amor.

Entrevista

Dom Pedro Carlos Zilli | Missionário do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME). Nascido em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), trabalha na Guiné-Bissau, na África Ocidental, desde 1985. Em 2001, foi nomeado Bispo de Bafatá, uma das duas dioceses do país.

Como foi o processo de discernimento vocacional para se tornar um missionário?

Eu morava em Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo, e cresci numa paróquia dominicana. Eu achava bonita a questão vocacional, mas ainda não tinha “caído a ficha”. Em 1971, toda minha família decidiu se mudar para Ibiporã, no Paraná, para trabalhar na lavoura de café, e lá acabei conhecendo o PIME e me senti chamado a ser missionário. Por isso costumo dizer que Deus agiu através da colheita de café. Entrei no seminário com 21 anos.

Fui ordenado padre em janeiro de 1985 e em abril recebi o crucifixo missionário na missa de envio. Passei três meses na Itália e em julho, ou seja, ainda na lua de mel sacerdotal, já fui para a Guiné-Bissau. Em 2001 fui nomeado bispo. Todo meu ministério foi realizado lá, exceto nos anos de 1998 e 1999, em que trabalhei no seminário de filosofia do PIME, em Brusque (SC).

Quando você entrou no seminário, tinha algumas expectativas sobre missão. Hoje, com mais de três décadas de experiência concreta, imagino que sua concepção seja diferente. Quais as principais diferenças? E como lidar com elas?

Você veja: estamos aqui conversando através de uma rede social [a entrevista foi realizada por vídeo-chamada]. As redes sociais são uma bênção, como os demais meios de comunicação. E mesmo com todos eles, é muito diferente quando conhecemos pessoalmente alguma realidade. E cada um faz uma experiência diferente em relação a isso. Ainda hoje vejo os jovens que passam por lá, cheios de sonhos, como no casamento, em que a noiva, por exemplo, imagina que todo dia vai ganhar um ramalhete de flores do marido. E não ganha.

Aí fui aprendendo uma coisa: que eu tinha que fazer poesia a partir da realidade. Pois qual o perigo? O perigo é você passar daquele sonho irreal a um realismo também irreal. “Ah, ninguém quer nada com nada, eu pensava que era de um jeito, e não é”. É preciso descobrir a beleza a partir da realidade, a partir de onde o povo está. Tem aquela música linda que diz que o artista tem que ir onde o povo está. Isso me ajudou muito. Fui percebendo a beleza, com todos os limites. Porque outro perigo é chegar a outra cultura, outro país, e ver só os defeitos. Sim, há defeitos, mas aqui no Brasil também temos uma montanha deles. Há também as riquezas. Então eu fui aprendendo pouco a pouco esses macetes para viver bem a missão.

A ideia de missão que a Igreja tem hoje é a de uma presença servidora junto ao povo, o que não descarta o anúncio do nome de Jesus. Quem deseja se tornar cristão, tem esse desejo suscitado por atração e não por proselitismo.

Acho que os pontos fundamentais da nossa ação são três: o primeiríssimo, e eu não troco com os outros dois, é o anúncio do Evangelho. Nem Jesus fez proselitismo: “Se alguém quiser ser meu discípulo” (Mt 16, 24). Se alguém quiser. Já com os discípulos ele falou diferente: “Ide”. É um mandato, uma ordem aos discípulos. Para mim é uma obrigação, mas para as pessoas, uma proposta. Os outros dois aspectos fundamentais são a saúde – lá temos muitos problemas com desnutrição e aí entra o trabalho da Pastoral da Criança, do Centro de Recuperação Nutricional, da Casa das Mães e de alguns hospitais nossos que para o país são referência – e a educação. Um padre colega meu no PIME traduziu todo o Novo Testamento para uma língua local e uma senhora respondeu: “Mas nós não sabemos ler. De que serve?” Então trabalhamos muito com a alfabetização, para que as pessoas possam ler não somente a Bíblia, mas tudo o mais, para abrir a cabeça.

Na prática, como que se dá esse anúncio? Como vocês apresentam a proposta do Evangelho para as pessoas?

Não tem uma receita pronta. Depende muito da sensibilidade do missionário e também da do bairro. Tem bairros em que você chega – e são a maioria – em que não há nenhum cristão. Existem muitos modos de começar, mas eu penso que a orientação mais segura é começar logo anunciando Jesus. Outros assuntos de doutrina vêm depois. Eu gosto de começar pelo evangelho de São Marcos, que já começa assim: “Evangelho de Jesus Cristo, filho de Deus”. E assim vamos atraindo pessoas, temos muitas crianças em Guiné-Bissau, e muitas fazem catequese. Mas também adolescentes, adultos e idosos. Não é todo dia, mas já tive a graça de batizar um idoso de mais de 80 anos, que estava muito feliz.

O Papa Francisco gosta de reforçar que a conversão é um processo delicado, que exige um caminho gradual. Acho que quando lidamos com uma cultura diferente da nossa, isso é mais delicado ainda.

Quando eu fiz o curso de teologia, gostava muito de teologia da Revelação, pois entendemos que Deus foi se revelando progressivamente. Progressivamente e com calma. Quando ouço um missionário falar: “Estou aqui há 5 anos e nada dá resultado”, eu pergunto: “O que são 5 anos?” “Eu estou há 34 anos”. O que são 34? Conheço missionários que estão lá desde 1969. Então, quem vai lá achando que agora tudo vai mudar porque “eu cheguei”, tem que entender que não é por aí, não. É muito lento, é progressivo, e Deus vai agindo e transformando os corações.

Nesse processo de revelação progressiva, o que você aprendeu sobre sua própria fé vendo a caminhada de fé do povo guineense?

Uma das coisas que aprendi foi quando vi que o povo de lá, como o do Antigo Testamento, passa por inúmeras tentações, como a de voltar às suas próprias tradições religiosas. No Antigo Testamento, o povo jurava fidelidade ao Senhor e depois dava umas mancadas e saía do caminho. Eles vivem essa tentação continuamente. Mas o que descobri foi que nós também temos essa tentação. Não temos questões como a relação com espíritos, mas temos outras. Aprendi que, afinal, precisamos estar sempre atentos, que a nossa fé pode deslizar e sair da estrada.

Outra coisa muito bonita que me vem à mente é o grande esforço que fazem para viver a fé cristã. É uma luta de todo dia, e ao mesmo tempo uma alegria. Se no Brasil eu chegar a uma repartição pública e dizer que sou cristão, não vai fazer muita diferença. Todo mundo aqui é “meio cristão”. Mas lá, ser cristão é uma questão de identidade. Eu gosto de ouvir uma pessoa dizer que é cristã, que é católica, que é evangélica.

E também é muito bonito o respeito um pelo outro. Especialmente no início do ano, convidamos os evangélicos e os muçulmanos e fazemos a oração pela paz. Essa convivência é muito importante. Quando estou em um bairro e vejo uma pequena catedral tradicional – normalmente uma construção pequena e simples, que não chega a um metro de altura, coberta por sapê –, eu passo com a maior reverência possível, porque lá está a fé da pessoa. Isso eu aprendi lá e nós precisamos aprender aqui. Eu tenho a minha fé, mas respeito a fé do meu irmão.

Eu soube que a maioria dos missionários que atuam no país são leigos. Além disso, os catequistas são os próprios guineenses, que são preparados por esses missionários. Qual o papel dos leigos na missão da Igreja da Guiné-Bissau?

Quando se fala dos catequistas, são “os” mesmo. No Brasil, quando se fala dos catequistas, são dois homens e quarenta mulheres. Lá é o contrário. Em nossa diocese temos em torno de 300 catequistas, a maioria rapazes. É muito importante o envolvimento dos guineenses, porque são eles que conhecem bem a língua. O português é a língua oficial da Guiné-Bissau. Alguém me disse: “Então você está com o burro na sombra”. Falei: “Não. Uma parte do burro está na sombra, a outra está no sol”.  No dia a dia fala-se o crioulo – que é semelhante ao português, mas exige uma série de manobras na cabeça – e as línguas étnicas, que são duras de se aprender. E também temos os vários missionários leigos, daqui do Paraná, na Missão Católica São Paulo VI, em Quebo. É muito bonito isso, que os leigos estejam assumindo tarefas importantes na Igreja.

Você acompanha a história da Guiné-Bissau há mais de trinta anos – e me parece que seja uma história bem conflituosa. Como você enxerga a missão da igreja nesse contexto?

É bem conflituosa, sim. Houve a Guerra da Independência entre 1963 e 1974 e a Guerra Civil entre 1998 e 1999. A Igreja sempre esteve presente em meio aos conflitos. A Igreja é vista como uma autoridade e o povo espera que os bispos transmitam alguma mensagem nesses períodos. Fazemos isso com uma certa frequência – não fazemos mais para não perder o efeito. Já fizemos duas mensagens conclamando a paz que foram assinadas por católicos, evangélicos e muçulmanos. Em uma ocasião, o então presidente, um muçulmano, nos chamou em meio a um conflito e a audiência durou só cinco minutos: apenas nos pediu para rezarmos pela paz, pelo diálogo e pela reconciliação. É muito bonito esse reconhecimento da Igreja por parte das autoridades.

A missão da Igreja brasileira na Guiné-Bissau tem o nome de Paulo VI, que foi canonizado no ano passado. O que o senhor diria sobre a importância da canonização de Paulo VI?

Foi ele quem levou à frente o Concílio Vaticano II. João XXIII teve a ousadia e a graça de convocar um concílio, mas acho que nem ele pensava que daria nisso tudo. Paulo VI deu continuidade ao concílio após a sua morte. Foi o papa que deu início ao hábito das visitas papais a diversos lugares do mundo. Em 1969, foi o primeiro papa a ir para a África, conclamando a Igreja do continente para ser missionária. Também recebeu em audiência Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, líderes que lutavam pela independência dos países africanos de língua portuguesa. Muita gente morreu pela independência e pela liberdade. Mas a conquista da independência se atribui também, em parte, a Paulo VI, por ter recebido esses líderes. Nós tínhamos um padre, Antonio Grillo, que foi preso acusado de defender os rebeldes e os guerrilheiros que lutavam pela independência contra o regime português. Quando Paulo VI se tornou papa, o governo português perguntou o que ele queria de presente: “Quero a libertação do padre Antonio Grillo”. Dito e feito. Paulo VI era maravilhoso.

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Um agradecimento enorme ao amigo Bruno Gambarotto, parceiro na produção destas entrevistas.

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