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Felipe Koller

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Por que os católicos não comem carne na Sexta-Feira Santa?

O que a ruptura com o pecado tem a ver com não comer carne em alguns dias do ano?

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A abstinência de carne na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa é um costume largamente conhecido, mesmo fora da Igreja Católica. Já há muito tempo o peixe é considerado o alimento típico da sexta que precede a Páscoa – muitas vezes, de forma requintada e abundante, o que acaba contradizendo o próprio sentido da abstinência de carne. Mas qual é esse sentido mesmo?

O Catecismo da Igreja Católica é muito breve ao falar do jejum e da abstinência. O texto elenca o jejum, ao lado da oração e da esmola, como uma das três formas de expressão da “penitência interior do cristão” sublinhadas pela Bíblia e pelos Padres da Igreja – os teólogos e pastores dos primeiros séculos da Igreja. O Catecismo ainda relaciona cada uma delas com a expressão da conversão “em relação a si mesmo, a Deus e aos outros” (CIC 1434), nessa ordem.

Aqui já temos algumas ideias interessantes. A primeira é que essas expressões exteriores estão ligadas a uma disposição interior de penitência. O próprio Catecismo, alguns parágrafos antes, define a penitência interior como “uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más ações que cometemos” (CIC 1431).

A conversão em relação a si mesmo

Mas o que a ruptura com o pecado tem a ver com não comer carne em alguns dias do ano? A segunda ideia interessante daquele trecho do Catecismo ajuda a entender essa ligação: o jejum está ligado à conversão “em relação a si mesmo”. Muita gente repete que é melhor fazer jejum de fofoca e de falar mal dos outros do que de carne, chocolate ou outras coisas de que gostamos – com toda a razão. De fato, a Escritura é bem clara a respeito da importância apenas relativa do jejum – o que importa, diante de Deus, é o amor e a justiça. Isaías (58, 5-7) é enfático quanto a isso:

“O jejum que me agrada porventura consiste em o homem mortificar-se por um dia? Curvar a cabeça como um junco, deitar sobre o saco e a cinza? Podeis chamar isso um jejum, um dia agradável ao Senhor? Sabeis qual é o jejum que eu aprecio? – diz o Senhor Deus: é romper as cadeias injustas, desatar as cordas do jugo, libertar os oprimidos e acabar com todo tipo de escravidão. É repartir seu alimento com quem tem fome, dar abrigo aos infelizes sem asilo, vestir os maltrapilhos, em lugar de desviar-se de seu semelhante”.

Ainda assim, a tradição cristã desde o início conservou a prática judaica do jejum, como uma modalidade de ascese e disciplina. A Didaquê, por exemplo, um dos mais antigos textos cristãos – ainda do século I – traz orientações sobre o jejum, bem como o próprio Novo Testamento.

Por trás disso, está a consciência de que o “jejum de fofoca” não é tão fácil assim (como a nossa própria experiência pode testemunhar): para romper com aquilo que é mau, é necessária uma dose de liberdade interior da qual, muitas vezes, não dispomos. Dessa maneira, o jejum – como qualquer prática de ascese – tem a função de nos exercitar nessa liberdade, de nos libertar da necessidade de responder às primeiras sugestões do nosso corpo, da nossa mente e do nosso entorno. É uma forma de pôr ordem na casa, para que tenhamos condições reais de colocar a nossa vida a serviço do bem.

Um mínimo

Compreendido o sentido da prática – que deixa claro que se esbanjar no bacalhau não é exatamente uma expressão de penitência –, resta entender a ligação com a abstinência de carne. Um dos “cinco preceitos da Igreja” (CIC 2041-2043) – um conjunto de regras disciplinares que têm por objetivo “garantir aos fiéis o mínimo indispensável de espírito de oração e de esforço moral e de crescimento no amor a Deus e ao próximo” – fala de “guardar abstinência e jejuar nos dias determinados pela Igreja”. É o Código de Direito Canônico – a versão em vigor, promulgada por João Paulo II, é de 1983 – que estabelece a obrigação do jejum e da abstinência de carne na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa (cânon 1251).

A ideia é, como se vê, estabelecer um mínimo de prática penitencial para o fiel católico, inserindo-o, como diz o Código (cânon 1249) em uma “observância comum de penitência”. Aqui tem outros dois aspectos importantes: a dimensão comunitária da observância – faz-se penitência como comunidade, como assembleia, mais do que individualmente – e a proposta, que podemos chamar pedagógica, de “garantir o mínimo” de expressão penitencial na vida do cristão.

É como dizer que, fora de uma orientação mais geral de penitência interior na vida do fiel e da comunidade cristã, o jejum e a abstinência nesses dois dias do calendário litúrgico não fazem muito sentido: essa obrigação pode ser um convite a dar mais espaço a ascese também fora desses dois dias ou uma expressão comunitária de uma prática que já se faz presente na vida do cristão, mas, tomada isoladamente, se assemelha muito mais a um costume vazio ou a uma excentricidade.

Mas por que a carne?

Ainda três observações rápidas. Como deve ter ficado claro, a prática do jejum está para a Igreja em um campo diferente do da moral. É uma orientação disciplinar. Não é imoral comer carne na Sexta-Feira Santa. Um católico pode se acusar de não aderir à observância comum determinada pela Igreja, mas não deveria colocar isso no mesmo nível de uma falta moral, contra o próximo. Além disso, enquanto a pregação moral da Igreja pode ser válida para qualquer pessoa, a orientação disciplinar é questão interna.

A segunda observação é sobre a questão da carne. O peixe, no contexto do Mediterrâneo, onde o cristianismo nasceu e se desenvolveu, era tido como um alimento comum, simples. A carne era mais apreciada e mais cara. A piedade também não demorou para associar a carne com o corpo de Cristo, violentado na Sexta-Feira Santa. Mas o sentido principal de que a carne tenha sido o alimento oficialmente associado à disciplina ascética da Igreja é mesmo o de que se trataria de um prato menos austero e, portanto, inadequado para um dia de penitência.

Por fim, um elemento da disciplina ascética que a tradição cristã constantemente guardou e que é muito menos lembrado do que as “proibições” de carne nas Cinzas e na Paixão é que o domingo, dia do Senhor, bem como os dias festivos do calendário litúrgico – as “solenidades” –, são dias em que não se faz penitência de jeito nenhum. Para os cristãos do primeiro milênio, o domingo é o dia em que se reza não de joelhos, mas de pé – postura do Ressuscitado. O domingo é festa, é a Páscoa, e esse é o coração do ritmo da vida cristã. A penitência, no fim das contas, só existe para que a festa tenha mais gosto.

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