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Felipe Koller

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Papa pede perdão em nome da humanidade em carta a mulher vítima de violência doméstica

A carta foi divulgada por Filomena Lamberti por ocasião do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Não é a primeira vez que Francisco levanta a questão da violência contra a mulher. Foto: Reprodução/MediaSet
Não é a primeira vez que Francisco levanta a questão da violência contra a mulher. Foto: Reprodução/MediaSet

Uma mulher italiana vítima de violência doméstica decidiu, por ocasião do Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres (25/11), tornar pública uma carta que recebeu do Papa Francisco em junho de 2018. Em 2012, o então esposo de Filomena Lamberti desfigurou o seu rosto com ácido enquanto ela dormia. Na carta, o papa pede perdão a ela em nome da humanidade.

“Fico aterrorizado ao pensar na crueldade que desfigurou o seu rosto, ofendendo a sua dignidade de mulher e de mãe”, escreve Francisco. “Por isso, lhe peço perdão, tomando sobre mim o jugo de uma humanidade que não sabe pedir perdão a quem, na indiferença que predomina, é cotidianamente ofendido, pisado e marginalizado”.

“Não se sinta sozinha neste caminho, mesmo se a ajuda de Deus nos alcança de maneira diferente das nossas expectativas”, continua ele. “Peço perdão a você e oro para que a coragem que lhe devolveu singular beleza se torne um golpe na indiferença”. A carta foi uma resposta a Filomena, que havia enviado ao papa o livro em que conta a sua história, Un’altra vita: Non è um romanzo. È il coraggio di testimoniare (“Uma outra vida: Não é um romance. É a coragem de testemunhar”, em tradução livre).

Vittorio, ex-marido de Filomena, foi condenado a 18 meses de prisão na época da agressão, mas foi solto após 15 meses. Eles foram casados durante 35 anos – um período marcado por frequentes atos de violência dirigidos não apenas a Filomena, mas aos três filhos do casal. A agressão com o ácido aconteceu depois que ela pediu o divórcio, depois de saber que um de seus filhos havia agredido a noiva, o que Filomena creditou à influência do marido.

Ela correu sério risco de vida e teve que passar por 25 cirurgias. Hoje, é ativista no combate à violência contra a mulher. “É preciso denunciar na primeira vez em que ocorre a violência. No primeiro ato, você precisa dizer ‘não’ e deixá-lo”, disse em um programa na emissora Rai Uno no qual falou da carta.

Violência contra a mulher

De acordo com a ONU, uma em cada três mulheres do mundo experimenta violência física ou sexual ao longo da vida – geralmente, perpetrada por um parceiro. Segundo dados de 2012, metade das mulheres assassinadas no mundo todo foram mortas por um parceiro ou parente. O Brasil registra 600 casos de violência doméstica e 160 estupros por dia, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados em agosto de 2018.

Em janeiro, durante sua visita ao Peru, Francisco lamentou que “muitas mulheres sejam tão desvalorizadas, desprezadas e sujeitas a violências sem fim”. “Não: não se considere normal a violência contra as mulheres, mantendo uma cultura machista que não aceita o papel de protagonista da mulher nas nossas comunidades. Não nos é lícito virar cara para o outro lado, irmãos, e deixar que tantas mulheres, especialmente adolescentes, sejam espezinhadas na sua dignidade”, disse.

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Meses antes, na Colômbia, o papa fez menção a “comunidades onde ainda se arrastam estilos patriarcais e machistas” e sublinhou a necessidade de “reconhecer o sofrimento das mulheres vítimas de violência e de abusos”. Na exortação apostólica Amoris laetitia, de 2016, Francisco criticou ainda “os vestígios dos excessos das culturas patriarcais, onde a mulher era considerada um ser de segunda classe”, e convidou a “admirar a obra do Espírito no reconhecimento mais claro da dignidade da mulher e dos seus direitos” nas últimas décadas.

“Apesar das melhorias notáveis registadas no reconhecimento dos direitos da mulher e na sua participação no espaço público, ainda há muito que avançar em alguns países. Não se acabou ainda de erradicar costumes inaceitáveis; destaco a violência vergonhosa que às vezes se exerce sobre as mulheres, os maus-tratos familiares e várias formas de escravidão, que não constituem um sinal de força masculina, mas uma covarde degradação. A violência verbal, física e sexual, perpetrada contra as mulheres em alguns casais, contradiz a própria natureza da união conjugal”, afirmou ele (n. 54).

Francisco ainda tocou no assunto durante sua participação na Reunião Pré-Sinodal com jovens do mundo todo em março de 2018, detendo-se sobre a questão do tráfico de mulheres. “Esta é uma das lutas que peço que vocês, jovens, enfrentem: pela dignidade da mulher”, disse o papa. “’Mas, padre, não se pode fazer amor?’ Não, não, isto não é fazer amor. Isto é torturar uma mulher. Não confundamos os termos. Isto é um crime. Mentalidade doentia. E quero aproveitar este momento para pedir perdão a vocês e à sociedade, por todos os católicos que cometem esse ato criminoso”.

Predecessores

Bento XVI, em visita ao Brasil em 2007, já havia criticado a “mentalidade machista” que “ignora a novidade do cristianismo que reconhece e proclama a igual dignidade e responsabilidade da mulher em relação ao homem”. “Existem lugares e culturas em que a mulher é discriminada ou subestimada unicamente pelo fato de ser mulher, onde se faz recurso até a argumentos religiosos e a pressões familiares, sociais e culturais para sustentar a desigualdade dos sexos, onde se perpetram atos de violência contra a mulher, tornando-a objeto de sevícias e de exploração na publicidade e na indústria do consumo e da diversão”, afirmou o hoje papa emérito no ano seguinte.

“Diante de fenômenos tão graves e persistentes, parece ainda mais urgente o compromisso dos cristãos para que se tornem em toda a parte promotores de uma cultura que reconheça à mulher, no direito e na realidade dos acontecimentos, a dignidade que lhe compete”, concluía o Papa Bento.

A primeira vez em que um papa usou publicamente o termo “machismo” foi em 1981, na exortação apostólica pós-sinodal Familiaris consortio, de São João Paulo II. Ele mencionou o problema ao dizer que tanto a ausência do pai quanto uma sua presença opressiva” provoca desequilíbrios psicológicos e morais e dificuldades notáveis nas relações familiares” e descreveu o machismo como “a superioridade abusiva das prerrogativas masculinas que humilham a mulher e inibem o desenvolvimento de relações familiares sadias”.

Anos depois, em 1995, em sua Carta às mulheres, João Paulo II recordou “a longa e humilhante história – com frequência, ‘subterrânea’ – de abusos perpetrados contra as mulheres no campo da sexualidade”. “Não podemos permanecer impassíveis e resignados diante deste fenômeno”, escreveu ele. “Está na hora de condenar vigorosamente, dando vida a apropriados instrumentos legislativos de defesa, as formas de violência sexualque não raro têm a mulher por objeto”.

Em 2000, o tema foi mencionado entre as faltas cometidas pela comunidade eclesial na celebração do Dia do Perdão, idealizada e presidida pelo papa. O texto lido pelo cardeal nigeriano Francis Arinze, sob o título “Confissão dos pecados que feriram a dignidade da mulher e a unidade do gênero humano”, dizia: “Oremos pelas mulheres, demasiado frequentemente humilhadas e marginalizadas, e reconheçamos as formas de cumplicidade pelas quais também cristãos foram culpados”.

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