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Felipe Koller

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Obra do monge e ativista Thomas Merton permanece viva 50 anos após sua morte

Um dos autores de espiritualidade mais importantes do século XX, Merton foi um monge do silêncio, mas também da palavra.

CNS photo/Merton Legacy Trust and the Thomas Merton Center at Bellarmine University
CNS photo/Merton Legacy Trust and the Thomas Merton Center at Bellarmine University

Quando alguém ouve falar nos monges trapistas, a primeira palavra que costuma vir à cabeça – talvez depois de “cerveja” – é “silêncio”. No entanto, o trapista mais famoso dos últimos cem anos, e quem sabe de toda a história da ordem, foi um prolífico escritor, poeta, palestrante e ativista: Thomas Merton. “Sua vida esteve longe de ser silenciosa, apesar de sua inclinação eremítica, pois foi, pela Providência Divina, um criativo ministro da Palavra”, disse o seu abade, Flavian Burns, na semana de sua morte, que completou na segunda-feira (10/12) 50 anos.

Nascido em Prades, na França, em 1915, e morto em Bangcoc, na Tailândia, em 1968, Merton passou a vida nos Estados Unidos. Filho de dois artistas, um anglicano neozelandês e uma quaker norte-americana, Merton acabou passando mais tempo com o avô materno, um maçom, que lhe transmitiu uma atitude de repúdio para com a Igreja Católica. Tanto que teve vontade de jogar no lixo um exemplar de O espírito da filosofia medieval, de Étienne Gilson, que tinha comprado em uma livraria, depois de ver que o livro tinha um imprimatur – uma autorização eclesiástica garantindo a ortodoxia de seu conteúdo.

A essa altura, em 1937, Merton era estudante de Língua Inglesa na Universidade de Columbia. Apesar do imprimatur, o livro se revelou uma joia para alguém fascinando pela Idade Média como o estudante. No ano seguinte, conversando com um monge hindu em Nova York, foi aconselhado a ir em busca das suas próprias raízes espirituais – Mahanambrata Brahmachari lhe sugeriu que lesse as Confissões de Agostinho e A imitação de Cristo. Ainda em 1938, Merton decidiu ingressar na Igreja Católica, sendo batizado em 16 de novembro.

Decidiu ser padre, pedindo para entrar na Ordem dos Frades Menores, os franciscanos. Porém, não foi aceito por ter sido pai solteiro, de acordo com Getúlio Bertelli, doutor em Teologia e professor da Universidade do Estado do Paraná (UNESPAR). Bertelli foi o primeiro brasileiro a realizar uma tese de doutorado sobre Merton, em 2005. Orientado pela teóloga Maria Clara Bingemer na PUC-Rio, ele fez parte de sua pesquisa na Abadia de Nossa Senhora de Getsêmani, no Kentucky, que Merton conheceu na Semana Santa de 1941 e na qual entrou como postulante no mesmo ano.

“O medievalismo estava na raiz da sua identificação com a vida do mosteiro”, conta Bertelli. “Ele gostava da Idade Média e os monges viviam na Idade Média. Eles produziam tudo o que consumiam”. O abade, Frederic Dunne, nunca se importou com o fato de ter tido um filho anteriormente. Percebeu, porém, que Merton poderia ter um outro tipo de fecundidade: notando seu talento literário, lhe pediu que escrevesse uma autobiografia espiritual, retratando seu caminho vocacional até o mosteiro.

A montanha

O objetivo de Dunne era a promoção vocacional da vida trapista. “Ele jamais imaginou que o que sairia dali seria um best-seller mundial”, aponta Bertelli. Merton trabalhou no livro durante sete anos, até que em 1948, um ano depois dos seus votos solenes, veio à luz A montanha dos sete patamares. A obra é considerada por muitos o maior livro de espiritualidade do século XX.

A repercussão foi tamanha que, ao longo dos anos, pessoas do mundo inteiro passaram a se corresponder com Merton, incluindo políticos, líderes religiosos e escritores como Jacques Maritain, Hélder Câmara, Giorgio La Pira, Ernesto Cardenal, Pablo Antonio Cuadra, Paulo VI, Alceu Amoroso Lima, Aldous Huxley, Nicanor Parra, Erich Fromm, Dorothy Day, Jean Daniélou e o próprio Étienne Gilson que o aproximou da fé católica.

“De repente o mundo invade a privacidade de quem queria fugir do mundo. Ele é obrigado, assim, desde a sua solidão, a dar respostas a um mundo marcado pela guerra, pela corrida atômica, pelo racismo”, conta Bertelli. Pouco a pouco, Merton se engajou nesses temas, defendendo a não-violência e a justiça social, bem como se tornou um dos pioneiros do diálogo inter-religioso. No mesmo período, foi por dez anos (1955-1965) mestre de noviços da abadia e depois, por três anos, viveu como eremita em uma edificação isolada no terreno do mosteiro.

Em 1968, o abade Flavian Burns lhe deu permissão para empreender uma viagem pela Ásia, durante a qual ele pôde conhecer de maneira ainda mais próxima a espiritualidade oriental. Nunca mais voltou ao mosteiro: morreu em Bangcoc, depois de ter dado uma palestra em uma conferência de monges beneditinos e cistercienses. A versão oficial diz que Merton foi eletrocutado ao ter contato com a fiação de um ventilador após sair do banho, embora haja quem suspeite que ele tenha sido assassinado a mando da CIA.

“Ele era um homem absolutamente universal, avançado demais para a sua época. Uma figura radical”, avalia Bertelli. “Merton era, acima de tudo, homem de oração, um pensador que desafiou as certezas do seu tempo e abriu novos horizontes para as almas e para a Igreja”, disse dele o Papa Francisco, ao citá-lo entre os quatro grandes norte-americanos que foram o tema do seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos, em 2015.

Legado

A fecundidade da obra de Merton permanece até hoje, como atesta a existência de números Grupos de Leitura Partilhada Thomas Merton (GLPTM) nos Estados Unidos e em outros países do mundo. No Brasil, os grupos estão em 12 cidades e são coordenados pela Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton (SAFTM), fundada em 1996 e filiada a The International Thomas Merton Society (ITMS).

Aparecido Sérgio Bistafa participa do GLPTM vinculado ao Instituto Ciência e Fé da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (ICF-PUCPR), em Curitiba. Ele recorreu à obra de Merton quando, em 2007, teve contato com algumas conferências de Bernardo Bonowitz, abade do único mosteiro trapista masculino do Brasil, a Abadia de Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR) – onde, aliás, viveu até a sua morte, em 2016, um ex-noviço de Merton, o padre Felix Donahue.

“Naquela altura da minha vida, eu me encontrava perdido, ouvindo o chamado divino para retornar ao seio da Igreja, mas não me entusiasmando com nada do que eu via, ouvia ou sentia nas igrejas que frequentava”, conta Aparecido. “O contato com as conferências do padre Bernardo inflamou meu espírito e mudou minha vida. Merton foi um profeta ímpar, que soube olhar a realidade que o circundava com imensa compaixão e produzir uma obra condoreira, muito acima das disputas por posições de poder”.

É o que pensa também Rafael dos Santos Meduna, outro participante do grupo. “A visão de Merton era ampla, aberta e flexível aos horizontes – como uma águia, que vive em altos e solitários montes, e, que ao ser tocado pela graça da contemplação enche seu peito do sopro do espírito para descer em voo audacioso em direção ao mundo, com um novo olhar, que vê a realidade profunda das coisas”, avalia.

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