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Felipe Koller

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Ataques ao papa têm menos alcance do que parece, avalia assessor de Francisco

Para o monsenhor Dario Edoardo Viganò, “as pessoas hoje em dia são muito inteligentes” e sabem lidar com informações capciosas.

Edjane Madza/PUCPR
Edjane Madza/PUCPR

Os ataques sistemáticos que determinados setores da Igreja Católica têm feito ao Papa Francisco têm bem menos alcance do que parece. É essa a avaliação do monsenhor Dario Edoardo Viganò, que foi prefeito da Secretaria para a Comunicação (atual Dicastério para a Comunicação) da Santa Sé de 2015 a março deste ano e hoje é o assessor do mesmo organismo. Viganò conversou com o Acreditamos no Amor na semana passada em Curitiba, onde participou do Átrio dos Gentios, evento promovido pelo Instituto Ciência e Fé da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Como prefeito do dicastério, Viganò foi o responsável por uma grande reforma que unificou os antes dispersos veículos de comunicação do Vaticano, otimizando os seus recursos e atualizando-os de acordo com as enormes mudanças que aconteceram no âmbito da comunicação nas últimas décadas. Agora assessor do dicastério, Viganò colabora com o seu sucessor, Paolo Ruffini – o primeiro leigo a ter o cargo de prefeito em um dicastério da Cúria Romana –, para que o processo de reforma chegue a bom termo. Confira a entrevista:

A reforma da comunicação vaticana não parece ser apenas uma mudança operativa, mas se trata de uma nova forma de entender a comunicação na Igreja. Como se deu esse processo?

O Papa Francisco, no estatuto da Secretaria para a Comunicação – hoje Dicastério para a Comunicação – disse que é necessário repensar o sistema comunicativo porque estamos vivemos uma mudança epocal. Por exemplo, hoje os perfis identitários de cada meio de comunicação são cada vez mais fluidos: há alguns anos, uma rádio era uma rádio e não fazia nada além disso, assim como uma televisão era uma televisão e um jornal impresso era um jornal impresso. Com a convergência digital, os meios de comunicação singulares não existem mais. O que existe é uma modalidade de produção de notícias que pode ser ao mesmo tempo em vídeo, em áudio, em texto e em imagem. Um exemplo é o jornal em que você trabalha, que deixou a circulação impressa diária no ano passado. Além disso, o papa decidiu unificar a direção editorial a partir do novo dicastério. Isso significa que o Vatican News, a Radio Vaticana Italia e o L’Osservatore Romano são chamados a seguir uma única direção editorial, o que não quer dizer que todos repitam a mesma coisa, mas que tenham a mesma agenda de prioridades e a mesma modalidade narrativa. Essa é uma parte da reforma que ainda está em curso.

Existe o risco de que às vezes a comunicação na Igreja se torne uma forma de marketing, estranha ao Evangelho?

Antes de tudo, acho que o profissionalismo é necessário, seja na comunicação de uma paróquia, de uma diocese ou de uma universidade católica. Nesse âmbito, o profissionalismo leva justamente a contar os fatos da comunidade cristã, lendo-os à luz do Evangelho. Isso porque a evangelização não pode ser confundida com a persuasão. A evangelização vem através do fascínio, do contágio: passo a crer porque me fascino com um homem ou uma mulher que creem – a sua vida me mostra que o Evangelho é credível. Mas antes vem uma preparação ao Evangelho, uma estrutura cultural, um sistema simbólico. É nesse sentido que penso que o profissionalismo proporciona uma preparação necessária para aquilo que depois se tornará a evangelização. Não vejo que haja riscos nisso, desde que todos entendam que não somos chamados a ser muitos – somos chamados a ser verdadeiros. É isso que Jesus ensina. Não somos chamados a ser poderosos, mas a confiar no Senhor. A Igreja conhece o próprio caminho, que não é um caminho de poder e privilégio, mas o caminho de viver na história de hoje aquela que foi a vida de Jesus – e isso inclui a cruz. Não se trata, pois, de persuasão, mas do desejo de que o Evangelho possa chegar às pessoas.

Muitos grupos que atacam o papa distorcem a doutrina e a história da Igreja para se legitimar como arautos da verdadeira fé. Nas redes sociais, muitas pessoas – sobretudo os jovens – estão expostos a esses discursos e são muitas vezes facilmente iludidos por eles. A Santa Sé pensa em alguma forma de responder a essas distorções?

É muito difícil vistoriar as informações que circulam na rede – precisaríamos de um exército! Acho que há três aspectos nessa questão. O primeiro é lembrar que o termo “comunicação” contém a mesma raiz que “comunhão”. A comunicação nasce do criar comunhão. Isso não significa concordar com todos, e sim expressar com respeito as próprias opiniões, na lógica da dimensão cristã. O segundo aspecto é que o papa sublinha duas atitudes diante desses acontecimentos: o silêncio e a oração. Mais ou menos como Jesus, que volta à sua pátria, onde começam a duvidar dele e querem jogá-lo de um precipício, mas, como diz o Evangelho, “ele, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” (Lc 4, 30). Por fim, creio que as pessoas hoje em dia são muito inteligentes. Os jovens leem, sabem se informar, de tal modo que aquilo que inicialmente aparenta ser uma voz forte não me parece que incida muito na vida das pessoas.

A última pergunta é uma curiosidade. Como assim o senhor nasceu no Rio de Janeiro?

Os meus pais partiram para o Brasil em 1955, depois que os médicos disseram a eles que não poderiam ter filhos. No Rio já havia outros italianos que diziam que era bom morar ali. Mas quando decidiram partir, minha mãe engravidou. Meu pai veio ao Rio primeiro e depois que minha irmã nasceu, minha mãe veio com ela, então com sete meses. Eu nasci sete anos depois. Meu pai, porém, descobriu nesse entretempo que tinha angina pectoris e, quando eu tinha três anos, voltamos todos à Itália. Três meses depois, meu pai morreu. Pelo jus soli, tenho cidadania brasileira. Acompanho as notícias do Brasil, ainda que o meu português não chegue nem a ser básico – enquanto a minha irmã, que nasceu na Itália, fala português perfeitamente, porque fez aqui toda a educação primária.

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