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Felipe Koller

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A santa que foi excomungada quando sua congregação denunciou um padre abusador

A australiana Mary MacKillop foi vítima das maquinações de um padre que queria "vingar" o confrade expulso do país depois de ter sido denunciado.

Santa Mary MacKillop em 1890. State Libray of South Australia/domínio público
Santa Mary MacKillop em 1890. State Libray of South Australia/domínio público

Nascida em Melbourne em 1842, a filha de escoceses Mary MacKillop tinha 24 anos quando se tornou a fundadora das Irmãs de São José do Sagrado Coração, a primeira congregação religiosa católica da Austrália. Embora a fundação tenha sido responsável por avanços significativos na rede de educação e de assistência social do país, a história de Santa Mary MacKillop se destaca também devido a outro fator: ela chegou a ser excomungada depois que a sua congregação denunciou um caso de abuso sexual.

Tudo começou quando as irmãs da congregação de MacKillop souberam que o padre franciscano Patrick Keating cometia abusos sexuais no confessionário da igreja em que atendia, em Kapunda, ao norte de Adelaide. A congregação denunciou o abuso ao padre John Smyth, o vigário-geral de Adelaide – o segundo posto em uma diocese, apenas abaixo do bispo –, através do seu diretor e cofundador, o padre Julian Tenison Woods. O bispo, Laurence Sheil, estava em Roma participando do Concílio Vaticano I.

Vingança

Segundo o padre Paul Gardiner, que foi o postulador da causa de canonização de MacKillop, alguns padres quiseram “vingança” depois que o vigário-geral aplicou sanções disciplinares a Keating. A medida aplicada para penalizar o padre hoje não teria nada de pesado; pelo contrário, era também uma forma de acobertamento que pouco resolvia. Keating foi obrigado a voltar para seu país de origem, a Irlanda, mas lá continuou seu ministério como presbítero. Na época, porém, a sanção gerou a revolta de alguns de seus colegas.

“Eles ficaram tão irritados que decidiram destruir a congregação”, contou Gardiner ao programa de rádio australiano AM, na época da canonização da religiosa. “Mary e as irmãs eram uma grande ameaça àqueles bispos. Elas eram australianas, eram pensadoras independentes e se misturavam com o povo. Trabalhavam em meio aos pobres e não se importavam com os ricos. Então eles simplesmente não sabiam como lidar com elas”, avaliou Gardiner.

O padre Charles Horan, que era o superior de Keating, se aproveitou desse contexto e de sua influência sobre o bispo de Adelaide. Assim que Sheil aportou na Austrália, em fevereiro de 1871, Horan lhe entregou uma carta assinada por ele e mais dez padres descrevendo os alegados problemas da congregação. Depois de uma resistência inicial do bispo, Horan conseguiu convencê-lo a transferir o padre Woods para Bathurst, a mais de mil quilômetros de Adelaide.

A essa altura, MacKillop estava visitando os conventos do interior do país, na colônia de Queensland. Com ambos os fundadores da congregação longe de Adelaide, Horan viu sua chance. Ele pressionou Sheil a alterar drasticamente as constituições das religiosas, aos moldes das ordens irlandesas, para enfraquecer a congregação.

Em vez de prestar obediência à superiora geral, cada convento deveria ser independente um do outro e controlado pelo pároco local. As religiosas deveriam ainda instituir a divisão, comum naquela época, entre irmãs do coro e irmãs leigas – um reflexo da divisão social, já que as irmãs leigas, que vinham das camadas mais pobres da sociedade, eram as que faziam o trabalho braçal.

Insubordinação

Em viagem, MacKillop passou a receber cartas que insistiam que ela voltasse a Adelaide. Ela chegou à cidade no começo de setembro e pediu uma reunião com Sheil, mas ele se recusou a vê-la. A religiosa decidiu escrever um comunicado ao bispo, declarando que permaneceria fiel à regra original da congregação. “Não posso, em consciência, ver a regra alterada e continuar como irmã”, escreveu ela. Isso foi visto como insubordinação e ela teve a sua excomunhão decretada, aos 29 anos de idade. A essa altura, a sua congregação já dirigia quase 40 escolas.

As religiosas foram despejadas de seu convento e cinquenta delas foram dispensadas de seus votos por terem se recusado a aceitar as mudanças nas constituições. MacKillop, sem ter para onde ir, foi acolhida por uma família judia e era assistida pelos jesuítas, que se opunham às maquinações de Horan. “O bispo era um fantoche manipulado por padres maliciosos. Isso soa terrível, mas é verdade”, afimou Gardiner ao programa Compass em 2010.

Sheil morreu cinco meses depois. No leito de morte, deu instruções para que MacKillop fosse absolvida e para que a regra original fosse restaurada. O seu sucessor, Christopher Reynolds, apoiou a congregação. Uma visita canônica do secretário da Congregação para Propagação da Fé (atual Congregação para a Evangelização dos Povos) investigou Horan e informou o superior dos franciscanos que era melhor transferi-lo, “para a maior tranquilidade da região”.

Em 1873, ele voltou para a Irlanda e três anos depois foi enviado aos Estados Unidos. Também em 1873, MacKillop, por sua vez, viajou a Roma e foi recebida pelo Papa Pio IX, pedindo a aprovação da regra da congregação – o reconhecimento pontifício viria sob Leão XIII, em 1888. Ela morreu em Sydney, em 1909. Foi beatificada por São João Paulo II em 1995 e canonizada em 2010 por Bento XVI – curiosamente, o papa que deu início à política de tolerância zero contra o abuso sexual na Igreja – como a primeira santa australiana.

Na sequência do relatório de um júri da Pensilvânia contendo revelações sobre casos de abuso de mais de mil crianças e adolescentes cometidos por padres – e que deu origem a uma nova carta do Papa Francisco sobre o assunto –, a Universidade de Scranton decidiu retirar os graus honoríficos dados aos bispos que acobertaram os casos, bem como renomear os prédios que levam os seus nomes. O McCormick Hall deixará de homenagear o bispo Joseph Carroll McCormick e passará a se chamar MacKillop Hall, em honra à santa australiana que um dia foi excomungada em nome de um sistema de acobertamento de abusos.

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