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Felipe Koller

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10 coisas que você não sabia sobre a infância e a juventude do Papa Francisco

Dançarino de tango, apreciador de ópera, estudante de química e um neto apaixonado pela avó: como a primeira fase da vida do papa ressoa em seu pontificado.

Jorge Mario Bergoglio (à esquerda), ao lado de seu irmão Oscar.
Jorge Mario Bergoglio (à esquerda), ao lado de seu irmão Oscar.

A infância, a adolescência e a juventude definem muito daquilo que nos tornamos. Nesse período inicial da nossa vida, vivemos experiências modeladoras da nossa forma de compreender o mundo. Com o papa, é claro, não é diferente: muitos dos elementos de destaque do pontificado de Francisco podem ser rastreados até sua infância e juventude no bairro de Flores, na Argentina.

Reuni aqui dez tópicos interessantes sobre a primeira fase da vida de Jorge Mario Bergoglio, recolhidos do livro The Great Reformer, do jornalista britânico Austen Ivereigh, largamente considerado a melhor biografia do papa disponível até agora. Confira:

  1. Uma família de migrantes

Giovanni e Rosa Bergoglio, os avós do papa, migraram da Itália para a Argentina em novembro de 1927, acompanhados dos seis filhos – entre eles, Mario, o pai do papa. A família deveria embarcar no Principessa Mafalda, um dos transatlânticos mais renomados do seu tempo. Porém, a venda do café que mantinham em Turim demorou mais do que o esperado, de modo que a família trocou as passagens para o mês seguinte, tomando o navio Giulio Cesare. Uma sorte e tanto: o Principessa Mafalda naufragou naquela mesma viagem, no litoral baiano. Das 1255 pessoas a bordo, 382 morreram.

  1. Um padre sempre por perto
Enrico Pozzoli, o salesiano que acompanhava a família Bergoglio.
Enrico Pozzoli, o salesiano que acompanhava a família Bergoglio.

Uma presença constante na infância e adolescência do papa era o padre salesiano Enrico Pozzoli, que o seu pai conheceu em suas idas a Buenos Aires, quando a família ainda morava na cidade de Paraná – antes do nascimento do papa. Já em 1929, Pozzoli se tornou diretor espiritual de Mario. Ele acompanhou a sua mudança para a capital argentina em 1932 e foi através dele que Mario conheceu Regina Sivori, com quem se casou em 1935. Foi ele ainda quem batizou o futuro papa no Natal de 1936 e o acompanhou em seu discernimento vocacional.

  1. Uma freira que lhe ensinou a misericórdia

Uma das três grandes influências femininas desse período de sua vida foi a irmã Dolores Tortolo, das Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia. Foi ela quem o preparou para a primeira comunhão – “dela recebi uma formação catequética equilibrada, otimista, alegre e responsável”, lembraria o cardeal Bergoglio. Os dois nunca se afastaram: ela o apoiou durante uma grave enfermidade quando ele tinha 21 anos, esteve em sua primeira missa em 1969 e receberia sua visita sempre que ele, como jesuíta ou bispo, voltasse ao seu bairro natal. No fim da vida dela, Bergoglio até mesmo a levava no colo de um canto a outro do convento. Quando ela morreu, em 2006, o cardeal passou a noite inteira em vigília junto do seu corpo.

  1. Uma avó que lhe transmitiu a vida da fé

Mas a maior influência foi mesmo a avó paterna, Rosa Margarita Vasallo di Bergoglio. Na Itália, ela não se calava diante da repressão fascista à Ação Católica, movimento de que fazia parte, e não temia falar em público, na igreja, contra Mussolini. Foi ela a grande transmissora da fé para o pequeno Jorge Mario. “A avó é a reserva moral, religiosa e cultural. É ela quem transmite toda a história. A mãe e o pai estão por ali, trabalhando, ocupados com isso e aquilo, com mil coisas para fazer. A avó fica mais na casa”, disse ele em 2002. Rosa o ensinou a rezar o terço, a ter devoção pelos santos, a sentir-se filho da Igreja e, mais do que isso, a ter “a sabedoria da verdadeira religião”, nas palavras de Bergoglio: enquanto a fé de seus pais era mais puritana, Rosa sabia reconhecer a presença do bem fora dos esquemas moralistas e autorreferenciais de então.

Bergoglio e a avó Rosa, sua maior influência.
Bergoglio e a avó Rosa, sua maior influência.
  1. Uma formação culta

A despeito da imagem popularesca com que as vezes se denigre o papa, contrastando-o com a erudição de Bento XVI, Bergoglio teve uma formação literária e artística refinada. Ele sabe recitar de cor longas passagens do poema épico de José Hernández, El Gaucho Martín Fierro, considerado definidor da identidade argentina, bem como do principal poeta piemontês, Nino Costa – uma habilidade “herdada” da avó. Foi ela também quem o iniciou na literatura italiana: grandes temas do seu pontificado – como a misericórdia infindável de Deus, o contraste entre a mundanidade e a austeridade e a compreensão da Igreja como um hospital de campanha – estão todos lá em I promessi sposi, obra-prima de Alessandro Manzoni. Um dos passatempos da família era ouvir ópera em uma vitrola, com direito a comentários da mãe, Regina, durante a execução de cada peça.

  1. Uma família simples e uma perda precoce

A família Bergoglio vivia de modo muito simples. Não tinham carro nem viajavam nas férias, mas tinham comida na mesa e roupas para todos – mesmo que fosse naquele esquema em que uma camisa do pai, com alguns remendos, virava a camisa de um filho. O pai do papa morreu precocemente, aos 51 anos: em dezembro de 1961, Mario teve um ataque cardíaco enquanto assistia a um jogo do time do coração da família, o San Lorenzo, no Gasómetro, que foi o estádio do time até 1979. Um dos irmãos de Jorge, Alberto, que estava com o pai no momento, nunca mais voltou ao estádio. O papa guarda consigo um pedaço de madeira da arquibancada do velho estádio, como recordação da juventude e de seu pai – e continua pagando fielmente, mesmo depois de ir para Roma, a anuidade do clube.

Bergoglio e seus pais, Regina e Mario, pouco depois de seu ingresso na Companhia de Jesus.
Bergoglio e seus pais, Regina e Mario, pouco depois de seu ingresso na Companhia de Jesus.
  1. Uma juventude comum

Na Escuela Industrial No. 12 – uma novidade na época –, Bergoglio fez o curso técnico de química. Seus colegas lembram dele como um cara de bom coração: era viciado em livros, mas também gostava de jogar basquete nos intervalos e nos fins de semana saía com os amigos para dançar, em busca de uma namorada. Seus dias se dividiam entre as aulas e o trabalho em uma empresa de contabilidade. Ao mesmo tempo, o jovem já se identificava profundamente com sua fé: o professor de educação religiosa delegou a ele – que tinha 15 anos na época – a preparação para a primeira comunhão dos dois colegas que ainda não tinham recebido o sacramento. Mais tarde, ele passou a trabalhar no laboratório Hickethier-Bachmann e de vez em quando fazia um bico de porteiro em bares de tango.

  1. Uma paixão pela dança

Nas saídas com os amigos, Jorge era de início um pouco retraído, mas logo superou a timidez e aprendeu a amar a dança, especialmente a milonga e o tango. Nos asaltos – festas caseiras aos sábados à noite – ele fazia como os outros garotos: vestido de terno, convidava as garotas para dançar. “Jorge era um grande dançarino de tango”, lembra Anna Colonna, uma amiga da paróquia. “Mas às oito da manhã do dia seguinte, estávamos todos na missa”.

  1. Uma amiga comunista
Esther Ballestrino, chefe de Bergoglio por três anos em um laboratório.
Esther Ballestrino, chefe de Bergoglio por três anos em um laboratório.

Na efervescência política que a Argentina vivia nos anos da juventude de Bergoglio, ele procurou ter contato com várias posturas políticas e sociais, avaliando-as cuidadosamente e evitando qualquer adesão apaixonada. Ele acompanhava e apreciava os artigos de Leónidas Barletta, um dramaturgo e ensaísta de esquerda, mas nunca se deixou convencer pelo marxismo. Nesse sentido, o convívio com a sua chefe no laboratório o ajudou tanto a afinar a sua percepção crítica da sociedade quanto a entender que a discordância política não impede a amizade nem o aprendizado mútuo. A paraguaia Esther Ballestrino de Careaga era adepta do comunismo e havia fugido da ditadura em seu país em 1949, aos 29 anos. “Devo muito a essa mulher”, disse Bergoglio em 2010. “Eu a amava muito”. Esther acabou sequestrada e assassinada durante a ditadura militar na Argentina, em 1977.

  1. Um discernimento vocacional sereno

Francisco já repetiu várias vezes o relato daquele 21 de setembro de 1953 que marcou uma reviravolta na sua vida: naquela manhã, ele caminhava ao encontro da namorada e dos amigos quando passou diante da Basílica de São José, a igreja que frequentava, e sentiu um impulso irresistível de entrar. Ali, viu um padre que não conhecia se sentando ao confessionário e decidiu se confessar. Foi, segundo ele, a sua grande experiência de encontro com a misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, a certeza de seu chamado ao presbiterado. Mas menos conhecido é o fato de que o jovem demorou dois anos para contar a decisão à sua família: com muita maturidade e serenidade, ele decidiu terminar o curso técnico primeiro e discernir o seu chamado com clareza, com a ajuda do padre Duarte Ibarra – que conheceu naquela confissão e que morreu no ano seguinte – e do padre Pozzoli, que o ajudou a apresentar a situação à família, um tanto resistente a essa opção. Rosa, como sempre, ofereceu a reação exemplar: “Bem, se Deus te chama, abençoado seja”, disse, acrescentando que as portas estariam abertas se ele decidisse voltar e que ninguém o criticaria se ele o fizesse.

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