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Reflexões para mulheres reais

Lugar de mulher é em casa ou no trabalho? O que a Igreja diz sobre isso

Mulheres católicas podem trabalhar ou isso não combina com a vocação ao matrimônio? Será que a contribuição feminina para a sociedade se concentra apenas no seu papel na família?

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Por Letícia B.

Discutir e refletir sobre alguns temas pode ser perigoso: se faltar equilíbrio, podemos ser injustos e deixar de olhar a questão sobre vários aspectos. Um destes temas (muito discutido, mas pouco refletido com a devida amplitude que merece a questão) é o papel da mulher na família e na sociedade.

Alguns bons católicos, tomados por boas intenções, propagam um modelo ideal de mulher católica: casada, dona de casa, cuidando integralmente dos filhos enquanto o marido trabalha fora do lar. Não que ser dona de casa e cuidar exclusivamente do lar seja errado – muito pelo contrário! – todavia propagar um único modelo, como se fosse exclusivamente o correto, não entra em acordo com os princípios de universalidade da Igreja (afinal nem todos os fiéis poderão seguir este desígnio).

Já tive meus períodos de defender ferrenhamente que a mulher, desde o surgimento da humanidade, nasceu para ficar no lar. Estudando, percebi que minha visão era restrita e se aproximava mais de princípios burgueses e pagãos do que de ideais católicos.

Alguns consideram que muitos dos problemas atuais ocorreram a partir da emancipação da mulher. Mas este argumento não é válido, «é falso, não é verdade! Trata-se de uma forma de machismo».” (Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia)

Um passeio histórico

Em muitos núcleos pagãos pré-Idade Média [1], a mulher era vista como escrava ou propriedade do marido. Poderia ser dispensada quando não fosse mais conveniente.  Entre os povos germânicos, não tinha direitos nem sobre os próprios filhos e não podia viver de acordo com a própria vontade. Geralmente era excluída das funções públicas, políticas e administrativas, como entre os romanos e célticos.

Conforme o Cristianismo foi ganhando espaço, a figura feminina também foi recebendo destaque. A propagação de virtudes e das ideias de Cristo levou a sociedade da época a se tornar mais humana e misericordiosa. A figura da Virgem Maria, a escolhida para ser mãe de Deus, foi essencial para transformar o coração dos homens e os levar a enxergar na mulher a igualdade em dignidade querida por Deus no plano original da Criação. Isto foi refletido na vida social, em que era possível encontrar mulheres em diversas profissões: açougueiras, padeiras, boticárias, barbeiras, cuteleiras, banqueiras, comerciantes, professoras, arquitetas, entre outros. Diversas mulheres se destacaram como poetisas, escritoras, rainhas e copistas, entre as quais cito algumas: Maria de France (com seus contos cujas protagonistas eram mulheres), Cristina de Pisan (que escreve obras sobre a ausência do amado após se tornar viúva), Clotilde (santa rainha que converteu Clóvis, seu esposo, e exerceu grande influência no século VI), Dhuoda (escreveu o primeiro tratado de educação da França), Hildegarda de Bingen (monja beneditina que também era teóloga, musicista, médica, poetisa, escritora e professora do Mosteiro de Rupersberg no século XII), Joana e Margarida de Constantinopla (rainhas e governantes de Flandes e Hainaut), Leonor da Aquitânia e Branca de Castela (assumiram o reinado com poder ilimitado após a morte dos respectivos maridos), Adelaide da Itália e Isabel I da Espanha (rainhas que muito influenciaram seus maridos e seus reinos).

Assim que o Cristianismo começa a perder espaço [2], se consolida a chamada “classe burguesa”, por volta do século XVII. Regine Pernoud, medievalista francesa, escreve em seu livro “A Burguesia” que o burguês típico de 1840 era industrial, capitalista, não era piedoso para com seus servos como era o senhor feudal, pagava impostos e votava, era frívolo, culto, gostava de viver de aparências e era anticlerical.

Por volta deste período, a mulher deixa de ser valorizada e inicia um processo de perda de direitos. O homem passa a viver uma vida de aparência e dupla conduta moral: perante a sociedade tem uma família, mas na vida particular tem amantes. Há uma separação entre moral e religião: aos domingos frequenta-se a Igreja, durante a semana frequentam-se lugares impróprios. Aprende-se na religião que devemos amar aos pobres, mas no trabalho é praticado o lucro desmedido e as piores condições são dadas aos trabalhadores.

Tudo isto ressoa na vida da mulher: mais urbana, ela passa a ter menos filhos, e com menos filhos, recebe menos ajuda em casa, o que a obriga a cuidar do lar enquanto o marido trabalha fora. Ou seja, enquanto na Idade Média era possível observar a mulher em várias funções da vida pública, geralmente trabalhando ao lado do marido em igualdade de posições, na burguesia ela se restringe a cuidar do lar e ser desvalorizada socialmente [3].

Alguns dos vários lados da questão

É claro que hoje não vivemos na Idade Média nem no século XVII, mas absorvemos muitos resquícios da burguesia. Muitos de nós acabamos tomando por ideal mais uma família burguesa do que uma católica, medieval.  A Igreja não coloca “modelos ideais” de organização familiar – isto fica ao encargo de cada fiel organizar-se da maneira que melhor lhe convier. Todavia, há que se analisar vários lados da questão da mulher na família e na sociedade hoje e atualizar os princípios cristãos para os tempos que vivemos.

Por um lado, Deus criou Homem e Mulher em igualdade, mas também em diferenças: cada qual recebeu de Deus a potencialidade do seu próprio sexo em analisar e atuar no mundo de maneira diferente. Como mulheres, se quisermos realmente explorar toda a potencialidade de nosso sexo, devemos abraçar e assumir nossa condição. Até agora muitas de nós tentou se assemelhar ao homem, inclusive pensando e agindo como ele, no trabalho e socialmente. Julian Marias, filósofo espanhol, no livro “A mulher no século XX”, afirma que se a mulher assumisse verdadeiramente suas características, uma verdadeira revolução aconteceria na sociedade: “é provável que muitos problemas insolúveis encontrassem seu caminho”. É o que afirma também São João Paulo II na carta apostólica Mulieris Dignitatem: “A mulher — em nome da libertação do ‘domínio’ do homem — não pode tender à apropriação das características masculinas, contra a sua própria ‘originalidade’ feminina”. Assim, a mulher, com suas características e peculiaridades, assume papel essencial na sociedade.

Por outro lado, é necessário assumir que a constituição anatômica e fisiológica da mulher é diferente do homem, e isso impacta diretamente em suas funções na sociedade. A mulher é aquela que gesta e gera uma criança. Quando nasce um bebê, a mãe, por mecanismos fisiológicos de sobrevivência, sente-se extremamente ligada ao filho. É muito difícil para uma mãe deixar a criança pequena com outra pessoa para trabalhar, pois sente necessidade de estar com o bebê.  Conciliar maternidade e trabalho torna-se um desafio imprescindível, conforme exprime o Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia: “Hoje reconhecemos como plenamente legítimo, e até desejável, que as mulheres queiram estudar, trabalhar, desenvolver as suas capacidades e ter objetivos pessoais. Mas, ao mesmo tempo, não podemos ignorar a necessidade que as crianças têm da presença materna, especialmente nos primeiros meses de vida. A realidade é que ‘a mulher apresenta-se diante do homem como mãe, sujeito da nova vida humana, que nela é concebida e se desenvolve, e dela nasce para o mundo’. O enfraquecimento da presença materna, com as suas qualidades femininas, é um risco grave para a nossa terra. Aprecio o feminismo, quando não pretende a uniformidade nem a negação da maternidade. Com efeito, a grandeza das mulheres implica todos os direitos decorrentes da sua dignidade humana inalienável, mas também do seu génio feminino, indispensável para a sociedade. As suas capacidades especificamente femininas – em particular a maternidade – conferem-lhe também deveres, já que o seu ser mulher implica também uma missão peculiar nesta terra, que a sociedade deve proteger e preservar para bem de todos.”

Há também um outro ponto sobre esta questão: a necessidade financeira do trabalho. Muitas famílias não conseguem se sustentar apenas com o salário do homem, sendo necessário que também a mulher trabalhe. Em outros casos, pedir dinheiro emprestado ao marido para fazer qualquer coisa torna-se uma humilhação para a esposa, o que a faz desejar trabalhar para ter seu próprio salário. Também há que se considerar os casos de mulheres viúvas, divorciadas e mães solteiras: sem o trabalho a tarefa de prover o lar é quase impossível.

São João Paulo II, grande defensor da família e da dignidade feminina, na exortação apostólica Familiaris Consortio, concorda que “uma ampla e difundida tradição social e cultural tenha pretendido confiar à mulher só a tarefa de esposa e mãe, sem a estender adequadamente às funções públicas, em geral, reservadas ao homem”. Todavia o santo também coloca que “não há dúvida que a igual dignidade e responsabilidade do homem e da mulher justificam plenamente o acesso da mulher às tarefas públicas. Por outro lado, a verdadeira promoção da mulher exige também que seja claramente reconhecido o valor da sua função materna e familiar em confronto com todas as outras tarefas públicas e com todas as outras profissões. De resto, tais tarefas e profissões devem integrar-se entre si se se quer que a evolução social e cultural seja verdadeira e plenamente humana”.

Ou seja, é urgente que em nossos dias sejam pensados arranjos no trabalho que favoreçam a mulher, levando em consideração sua visão complementar à masculina – e portanto necessária à vida social – e sua condição particular de mãe.

É necessário, também, que se atualize a mentalidade burguesa de que somente a mulher deve educar os filhos. O matrimônio é constituído por um homem e uma mulher e também ao pai cabe estar presente na educação dos filhos, de preferência de maneira igual à mulher. As famílias medievais trabalhavam juntas; homem e mulher estavam a todo momento convivendo e educando os filhos. Por que tomamos por modelo a família burguesa em que o homem sai para trabalhar e volta exausto, pela noite, sem a mínima condição de conversar e brincar com as crianças? Piores são os casos em que ambos os genitores saem para trabalhar e voltam ao final do dia apenas desejando descanso, deixando o cuidado dos filhos para a escola ou terceiros. São João Paulo II, ainda na Familiaris Consortio, alerta que “de modo especial onde as condições sociais e culturais constringem facilmente o pai a um certo desinteresse em relação à família ou de qualquer forma a uma menor presença na obra educativa, é necessário ser-se solícito para que se recupere socialmente a convicção de que o lugar e a tarefa do pai na e pela família são de importância única e insubstituível”.

São por estes motivos que os documentos mais recentes do Magistério pedem especial atenção da sociedade para a família. Quando a família não é protegida, a sociedade tende ao fracasso, inclusive econômico. Precisamos de políticas ou arranjos das empresas que permitam aos pais e mães maior tempo com os filhos e maior participação na educação destes. Alternativas individuais, como a criação de empresas familiares ou trabalhos autônomos, também são iniciativas desejáveis e compatíveis com a vida em família. Nós, como leigos, somos responsáveis por buscar estas mudanças: “Esta é a tua tarefa de cidadão: contribuir para que o amor e a liberdade de Cristo presidam a todas as manifestações da vida moderna – a cultura e a economia, o trabalho e o descanso, a vida de família e o convívio social” (São Josemaria Escrivá, Sulco, n.302)

Importante lembrar que Deus tem um plano individual para cada um de nós. Somos como pequenas peças de um quebra-cabeça no plano de salvação do Senhor. Algumas mulheres são chamadas a se casarem cedo, outras mais tarde; algumas são chamadas ao trabalho dentro do lar, outras ao trabalho fora. Não existe uma organização familiar pronta que a Igreja quer que sigamos: o que deve prevalecer no seio da família é o amor a Deus em cada atitude nossa! Que, como mulheres católicas, saibamos abraçar e santificar nossa vocação na família e na sociedade.

“Obrigado a ti, mulher-trabalhadora, empenhada em todos os âmbitos da vida social, económica, cultural, artística, política, pela contribuição indispensável que dás à elaboração de uma cultura capaz de conjugar razão e sentimento, a uma concepção da vida sempre aberta ao sentido do « mistério », à edificação de estruturas económicas e políticas mais ricas de humanidade.

[…]

Obrigado a ti, mulher, pelo simples facto de seres mulher! Com a percepção que é própria da tua feminilidade, enriqueces a compreensão do mundo e contribuis para a verdade plena das relações humanas”. (Carta às mulheres, Papa João Paulo II)

NOTAS

1 – É possível ter um panorama interessante da Idade Média e Pré-Idade Média em relação à mulher nos livros da historiadora francesa Regine Pernoud. Outros autores interessantes sobre o período são: Will Durant, Paul Johnson, Thomas Woods Jr., Daniel Rops, Edward Grant, Edward Petters, Henry Kamen, Ronald Numbers, James Hannam, João Bernardino Gonzaga, Therezinha Oliveira, Ricardo da Costa, Michael Robson, David Lindberg, entre outros

2 – É importante salientar que a História não deve ser pensada como pacotes fechados de acontecimentos. Costuma-se dividir os acontecimentos históricos em períodos por questões didáticas, mas, na verdade, a realidade é muito complexa para ser categorizada. Assim, quando colocamos que épocas em que o Cristianismo estava mais áureo foram melhores para a situação feminina, estamos a generalizar o período e a comparar com outros períodos de maneira generalizada também.

3 – Aula recomendadíssima sobre esta e outras questões: http://dsi.carlosramalhete.com.br/index.php/2016/04/23/mulher-forte/ 

Texto originalmente publicado no blog Modéstia&Pudor

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