Sempre Família - Porque cuidar é fundamental

Conecte-se ao Sempre Família

Siga-nos:
PUBLICIDADE
Missão da CNBB em Guiné-Bissau
Missa celebrada na Missão Beato Paulo VI, em Guiné-Bissau (foto: divulgação/CNBB Regional Sul II).
Virtudes e Valores

Missionários brasileiros levam fé e serviços sociais a país africano que não tem nem energia elétrica

A cidade de Quebo, na Guiné-Bissau, é o lar de quatro católicos paranaenses que deixaram o conforto de suas vidas para cumprirem uma missão.

Ianabu é uma garotinha de dois anos que vive na Guiné-Bissau, país que segundo a ONU tem o 15º menor PIB per capita no mundo. Nessa ex-colônia portuguesa na costa ocidental da África, não há energia elétrica, nem estabilidade política, e por isso a indústria, os empregos e o comércio exterior são limitados. A família de Ianabu, muçulmana, vive como boa parte das famílias do país, em uma casa de blocos de barro coberta por palha, fazendo apenas uma refeição por dia, no meio da tarde – uma panela de arroz empapado.

Um dia, o choro de sua mãe chegou até os ouvidos de Salete Terezinha Lang, uma paranaense de 53 anos que desde março de 2015 vive na Guiné-Bissau com o seu marido, o diácono Pedro Avelino Lang, de 58 anos. Salete correu até a casa de Ianabu e encontrou a menininha agonizando nos braços de seu pai. Pedro, então, levou a família ao hospital e, apesar da precariedade do local, o médico conseguiu reanimar a criança, confidenciando a Salete que ela teria morrido se não tivesse sido socorrida imediatamente.

Pedro e Salete fizeram a diferença na vida de Ianabu. Mas o contrário também é verdadeiro: “Toda vez que vejo aquela menina sinto uma explosão de alegria dentro de mim”, diz Salete, que, mãe e avó, jamais imaginava ser um dia missionária na África. O casal faz parte de um projeto do Regional Sul 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), coordenado pelos bispos do Paraná: a Missão Beato Paulo VI, na localidade de Quebo.

Salete Terezinha Lang e algumas das crianças com as quais convive em Guiné-Bissau (foto: divulgação/CNBB Regional Sul II)
Salete Terezinha Lang e algumas das crianças com as quais convive em Guiné-Bissau (fotos: divulgação/CNBB Regional Sul II)

A missão começou quando uma delegação do Conselho Missionário Regional (COMIRE) visitou o país em 2011, a convite do bispo dom Carlos Pedro Zilli. Criado em Ibiporã, no Paraná, dom Pedro está na Guiné-Bissau desde que se tornou padre, em 1985. Em 2001 foi nomeado o primeiro bispo da diocese de Bafatá, de cujo território faz parte a região de Quebo. O testemunho da delegação entusiasmou os bispos paranaenses, que assumiram o desafio e enviaram em outubro de 2014 o primeiro grupo de missionários.

 

Retribuição

Durante o período de construção da casa da missão, os primeiros missionários moraram de aluguel em uma casa cujo proprietário era um líder muçulmano – em Quebo, os muçulmanos chegam a 70% da população. Os cristãos são uma pequena minoria, já que após o islamismo o maior grupo é o dos seguidores das religiões tradicionais africanas. Mas os missionários garantem que a relação com os muçulmanos é amistosa.

Pedro (de pé) e Odaril (agachado).
Pedro (de pé) e Odaril (agachado), com a população guineense.

“Eles sabem que onde há missionários na Guiné-Bissau o benefício é direto, então nos acolhem muito bem. A cidade ganha com saúde e educação”, avalia o coordenador do COMIRE do Regional Sul 2, Odaril José da Rosa, de 56 anos, que fez parte desse primeiro grupo. “Um dos líderes muçulmanos que estiveram na inauguração da missão disse que era um sonho deles ter uma missão católica em Quebo”.

Em todo o continente africano, a Igreja Católica atua não apenas na frente de evangelização, mas assume também serviços nas áreas de saúde e educação. Essa é também a característica da Missão Beato Paulo VI. Salete e a enfermeira curitibana Samara Taiza Zwirtes, de 22 anos, ajudam no hospital local e o grupo planeja fundar uma escola nos próximos anos. Quem adere à fé cristã o faz não por proselitismo, mas “por atração” – como dizia o papa Bento XVI – e passa a ser acompanhado por catequistas guineenses. Em outubro, serão abertas quatorze turmas de catequese, tanto de crianças como de adultos.

“A missão católica é uma presença da Igreja, na maioria das vezes silenciosa, no meio do povo”, diz Pedro. “Nós não fomos para lá para implantar o cristianismo, e sim para criar um espaço de serviço”, confirma o padre Mário Spaki, secretário do Regional Sul 2. “Isso vai fazer muito bem para nós. A Igreja do Brasil até hoje só recebeu, nesses cinco séculos de história. É hora de retribuir”.

 

Desafios

Os costumes locais impõem alguns desafios culturais aos missionários. Lá, a poligamia e ritos de passagem que envolvem mutilação genital são comuns, mesmo que em meninas a prática tenha sido proibida em 2011. Além disso, em muitas etnias há uma enorme desproporção na divisão de tarefas entre homens e mulheres. Enquanto elas cuidam da casa, dos filhos e do sustento da família, a única obrigação dos homens é construir a casa e, se forem muçulmanos, rezar as salás, as cinco orações diárias do islã.

Outro desafio é o clima e as condições precárias de vida, que fazem com que doenças como a malária – que os guineenses chamam de paludismo – sejam comuns no país. Pedro e Salete chegaram a contrair a doença nos primeiros meses na missão. “Foi uma experiência difícil”, conta a missionária. “Mas, ao mesmo tempo, pudemos experimentar aquilo que o povo daqui vive. Sofrer e sentir na própria carne a dor das pessoas deste país”.

“Quando você vai para lá, você descobre todo o seu potencial de fazer o bem ao outro. E isso gera uma alegria muito grande”, diz o padre Mário. “Isso não tira nada da dureza de estar lá”. “É um povo muito pobre, e mesmo assim muito feliz. A alegria que a gente não vê aqui, mesmo tendo tudo, a gente vê lá”, conta Odaril.

 

Padre Mário, durante celebração ocorrida em Quebo.
Padre Mário, durante celebração ocorrida em Quebo.

Futuro

Além de Pedro e Salete, que são de Ponta Grossa, e de Samara, está em Quebo também o padre Ivan Luiz Walter, de 50 anos, do município de Planalto. A comunidade, portanto, tem quatro pessoas. Isso por causa da capacidade da casa em que estão alojados. Com a construção de mais duas casas no terreno dos missionários, a capacidade será ampliada para doze pessoas. Na expectativa de estar entre os escolhidos, mais de cinquenta pessoas mantêm contato com o COMIRE e participam dos encontros anuais de futuros missionários.

A professora universitária Vivian Cristina Spier, de 41 anos, está na fila para cruzar o oceano. Ela sonhava em ir para a África toda vez que conversava com um padre amigo seu que se tornou missionário em Angola – até que ficou sabendo da Missão Beato Paulo VI. “Quando conhecemos a realidade daquele povo, parece que temos a responsabilidade de fazer algo por eles. A gente tem tanto e eles tão pouco”, avalia Vivian. “Isso também ressignifica a nossa existência. Não se trata de ser notado, mas de fazer a diferença na vida das pessoas, a ponto de alguém de lá poder dizer: ‘Nossa, eu tenho teto porque teve um pessoal lá do Paraná que veio pra cá e olhou para a gente’”.

***

Recomendamos também:

***

Curta nossa página no Facebook e siga-nos no Twitter.

Leia também