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Felipe Koller
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4 anos de Francisco. Há confusão na Igreja?

Francisco, como qualquer papa, tem seu próprio estilo. Mas ele é uma ameaça à fé da Igreja, como muitos dizem?

Quatro anos depois da eleição do papa Francisco, há quem diga que hoje há muita confusão na Igreja. Pede-se que o papa seja mais claro e chega-se a duvidar da sua fidelidade à fé católica. Os contrastes entre ele e seus predecessores parecem gritantes. Mas, afinal, se há confusão, a quem ela se deve? Será que o problema está mesmo em Francisco ou será que aqueles grupos que gostam de alardear a sua fidelidade ao magistério pontifício não fizeram a lição de casa direitinho durante os últimos pontificados?

Trago aqui três exemplos que apontam que a segunda opção é mais provável. Essas três situações mostram que, embora seja verdade que Francisco – como qualquer papa – tem as suas ênfases e seu estilo próprio, ele está muito longe de ser uma ameaça à fé da Igreja. Pelo contrário, quando olhamos de perto o magistério de São João Paulo II e Bento XVI, vemos que Francisco caminha na senda deles. A confusão se origina justamente da recepção seletiva e distorcida dos ensinamentos de seus predecessores.

  1. Ecumenismo e diálogo inter-religioso

Existe muita confusão quando os passos ecumênicos de Francisco são criticados por admiradores de São João Paulo II e Bento XVI, dois papas que – como São João XXIII, o Beato Paulo VI e João Paulo I – se comprometeram a fazer do ecumenismo uma das prioridades de seus pontificados. Nos passos do Concílio Vaticano II – que já havia admitido que a culpa da divisão da Igreja não é apenas das comunidades que se separaram de Roma, mas também do modo como os católicos se portaram (cf. UR 3) –, eles desempenharam o seu ministério estreitamente unidos a ortodoxos, anglicanos e luteranos, compreendendo que estamos unidos na mesma fé cristã. Com o mesmo empenho se dedicaram ao diálogo inter-religioso, como testemunham os encontros inter-religiosos em Assis em 1986, 2002 e 2011 – que Francisco repetiu em 2016. Vale lembrar que João Paulo II foi o primeiro papa a visitar uma mesquita, uma sinagoga e uma igreja luterana. Além disso, tanto ele quanto Bento XVI foram entusiastas de comunidades ecumênicas como Taizé, na França.

  1. Refugiados, pobres e periferias

Existe muita confusão quando a posição de Francisco em favor dos refugiados parece uma completa novidade e quando todo movimento do papa em favor dos pobres e marginalizados é rotulado como “teologia da libertação” ou “socialismo”. Afinal, a Doutrina Social da Igreja, que não pode ser reduzida a uma ideologia de esquerda ou direita, foi abordada em quatro das 14 encíclicas de São João Paulo II e em duas das três de Bento XVI. Para quem rechaça qualquer envolvimento da Igreja em temas sociais, pode parecer estranho ouvir São João Paulo II dizendo, 31 anos atrás, que “a teologia da libertação é não só oportuna mas útil e necessária” (e por isso precisava ser bem trabalhada e corrigida de seus desvios), ou Bento XVI defendendo que “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com a sua pobreza”. Note-se ainda que o papa Bento pediu que se favorecesse “a autêntica integração” dos migrantes e refugiados na sociedade, “com pleno direito de cidadania e a participação nos mesmos direitos e deveres”.

  1. Amoris Laetitia

Existe muita confusão quando se faz um escândalo porque o papa considera que, em casos específicos, divorciados em segunda união poderiam receber a comunhão, como se se tratasse de um problema dogmático. Para quem pensa assim, isso seria – em qualquer caso – um sacrilégio, já que um casal de segunda união que não se abstenha do ato sexual jamais poderia viver na graça, na comunhão com Deus. Mas São João Paulo II, 36 anos atrás, embora optando pastoralmente por não admitir esses casais à comunhão eucarística, já havia pedido para “discernir bem as situações” e considerado que devem ser oferecidos a eles os meios de salvação, para que implorem, “dia a dia, a graça de Deus” e obtenham dele “a graça da conversão e da salvação, se perseverarem na oração, na penitência e na caridade” (FC 84). Bento XVI, em 2012, também disse que os divorciados em segunda união precisam sentir “que não estão ‘fora’”: “Devem ver que mesmo assim vivem plenamente na Igreja”. “É muito importante também que sintam que a Eucaristia é verdadeira e participam nela se realmente entram em comunhão com o Corpo de Cristo. Mesmo sem a recepção ‘corporal’ do sacramento, podemos estar, espiritualmente, unidos a Cristo no seu Corpo”, disse o hoje papa emérito, deixando claro que a vida da graça é uma possibilidade também para eles.

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Muita gente foi influenciada por uma visão seletiva e ideológica do ensinamento de São João Paulo II e Bento XVI. Tentou-se, por algum tempo, encaixar Francisco nessa visão, explicando “o que ele quis dizer” aqui e ali. Com o tempo, porém, ficou claro que Francisco não cabia em seus rótulos. E aí, o que fazer? A confusão começa quando eu e você imaginamos já ter todas as respostas e sequer cogitamos que, sim, podemos, com toda a nossa boa intenção, ter alguns pontos cegos na compreensão da nossa fé. Se vivemos desde essa perspectiva, deixamos o nosso coração endurecer, acreditando que não precisamos mudar nada, que já estamos convertidos e que errados são os outros.

Neste aniversário da eleição de Francisco, peçamos a luz do Espírito Santo, para todos nós – peça para mim, peça para você, peça para o papa. Mas, ao fazer isso, procuremos evitar – e eu por primeiro – qualquer ar de superioridade. Que todos nós possamos enxergar a realidade – juntos, porque sozinhos pouco podemos fazer – com os olhos de Jesus, rosto da misericórdia do Pai.

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